





















Para: Sharon, Jen, Lauren, Julia
De: Maggie
Data: 02/2
Assunto: O pequeno segredo do chefe


		 verdade: estou grvida! No contei antes porque no sabia qual seria a reao de vocs quando soubessem que visitei um banco de esperma. Mas vocs se lembram da fofoca que envolvia o comportamento do nosso chefe, Kane, nos ltimos meses? Bem, parece que aquela clnica de fertilizao cometeu um erro... e o filho que vou ter  dele!
		Agora, Kane exige que nos casemos, mas jurei que nunca mais compartilharia a minha vida com algum que no me amasse... E se ele realmente quiser casar, ter primeiro de entregar seu corao!









Raye Morgan


SURPRESA:
UM BEB!










DIGITALIZAO: ALINE SOUZA
CAPTULO I

Kane Haley, sentado  sua mesa no escritrio da bem-sucedida empresa que fundara, olhava atentamente o papel que tinha em mos, parecendo desligado de tudo que no fosse seu contedo.
Desde que recebera um determinado telefonema do responsvel por um banco de espermas, no conseguia pensar em mais nada.
Como sempre conseguia raciocinar melhor se colocasse suas idias no papel, fez algumas anotaes em uma folha com papel timbrado da empresa e agora lia com ateno o que havia escrito, tentando resolver o enigma que o estava fazendo perder a concentrao:
Quem vai ter um filho meu?
Trudy - Romntica inveterada, fofoqueira oficial do escritrio, no sabe guardar segredos. Se no for ela, certamente deve saber quem !
Lauren Connor-Garota muito namoradeira, vive sempre tentando mudar sua aparncia para impressionar o patro, estava ausente, tratando de um problema estomacal. Hummm...
Sharon Davies - Foi recentemente flagrada no elevador com um cliente de peso, sempre fica ruborizada quando ele est por perto, e parece estar abatida demais ultimamente. Poderia estar esperando meu filho?
Leila-Constantemente surpreendo-a olhando fixamente para mim. Seria por algum outro motivo que no uma paixo platnica?
Maggie Steward - Minha assistente pessoal, quer ter filhos, mas, se no se cuidar, vai passar do tempo... Jamais iria a um banco de esperma.
Jlia Parker - Sempre se preocupa com o fato de sua endometriose poder afetar sua capacidade de gerar um filho. No h homem nenhum em sua vida. Com certeza, procuraria um banco de esperma!
Jennifer Martin - Est grvida de oito meses. Seria o filho de seu falecido noivo ou o meu?
Tentando terminar a digitao da ltima de uma pilha de cartas, Maggie surpreendeu seu chefe, Kane Haley, olhando-a daquela forma estranha novamente.
Ela mordeu o lbio inferior e inclinou-se mais para perto da tela do computador, em uma tentativa de fazer com que a parte lateral de seu blazer encobrisse seu ventre, que j comeava a se avolumar.
Seu patro teria descoberto que estava grvida?, perguntou-se, preocupada.
Voltou a dedicar-se aos seus afazeres, pedindo a Deus que o chefe voltasse para a sala dele e fechasse a porta de comunicao. No queria que ele a olhasse. No queria que ele a visse.
J devia ter-lhe contado, admoestou-se. E quisera faz-lo, mas no encontrara as palavras certas. Assim que ele soubesse que estava grvida, tinha certeza de que tudo mudaria, no s profissionalmente, mas pessoalmente tambm.
Tensa, passou as mos por entre os cabelos, perfeitamente arrumados, e tentou se concentrar no que fazia. Infelizmente, os pensamentos tenebrosos, as dvidas e o arrependimento a impediam. Tinha medo at de pensar no que Kane faria, e diria, quando descobrisse sua gravidez... De repente, teve receio de que ele a transferisse de departamento e contratasse outra assistente.
Maggie valorizava demais seu emprego. E, bem mais do que isso, precisava muito dele. Seu salrio era timo, melhor do que qualquer outro que pudesse ter em qualquer outro cargo na companhia. Sem contar que sua vida financeira estava se revelando mais apertada do que esperava. Tinha apenas a si mesma para poder contar e ter um filho custava caro...
As cartas, prontas, saam, uma de cada vez, suavemente da impressora. Normalmente, iria direto  sala do chefe, sentaria  cadeira em frente  mesa dele e tomariam um caf enquanto ele assinasse a correspondncia. Mas, naquele momento, Maggie hesitava, preocupada com o que Kane poderia estar pensando. Teria alguma pergunta a fazer-lhe? Estaria indagando-se por que ela ainda no lhe contara?
Levantou-se, tomando cuidado para no se mover de modo a evidenciar sua gravidez e, pegando a ltima, e mais importante, carta, juntou-a s outras e encaminhou-se para a sala contgua.
- Sr. Haley, se assinar esta carta agora, poderei envi-la em seguida - Maggie sugeriu, com voz suave. Kane a olhou, mas parecia distrado.
Como todas as vezes que enfrentava os olhos dele, Maggie sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo inteiro. Tinha plena conscincia de que esse era o grande problema de trabalhar para um homem cuja aparncia ficava entre um elegante senador da repblica e um caubi descompromissado. Bonito, sim, mas firme, msculo e... distante.
S quando ela colocou a carta  frente dele Kane pareceu entender, e pegou uma caneta.
- Claro...  murmurou.
Ainda temerosa de que ele notasse seu ventre levemente proeminente, Maggie aguardou, impaciente, mas Kane no pareceu perceber nada. Assinou a carta, colocou a caneta sobre a escrivaninha e voltou a ter aquela expresso vaga no olhar, ignorando-a por completo, certamente distrado com algo que lhe era muito importante.
Sem entender, mas aliviada mesmo assim, Maggie recolheu a carta. No entanto, algo ainda a perturbava, e intimamente tinha certeza de que o responsvel por essa inquietao era aquele olhar indagativo que o chefe lhe lanava de vez em quando.
- J est com o oramento pronto para que eu o acrescente no relatrio para a Bellingham? - ela perguntou, sabendo que isso era necessrio.
- Relatrio? - Kane indagou, ainda alheio. E, de repente, pareceu despertar: - Ah, sim! O contrato! No se preocupe, eu cuido de tudo. - E, olhando paraos papis espalhados sobre sua mesa, acrescentou:  Deve estar em algum lugar por aqui...
- Mas deve ser colocado no correio antes das cinco... - Maggie o lembrou, com a eficincia costumeira. Mais uma vez, ele a encarou por longos momentos. - Eu sei. E estar pronto, no se preocupe - ele afirmou.
Maggie sorriu, e retrucou naquele tom de voz bem-humorado que Kane j conhecia e do qual gostava: - Claro... Vai deix-lo pronto s quatro e cinqenta e sete...
O leve sorriso que Kane esboou desapareceu to depressa que Maggie julgou haver se enganado com a reao dele. Bastou um segundo olhar para que ela percebesse que aquela expresso alheia havia voltado ao rosto de Kane.
Maggie estranhava aquele comportamento. Olhou-o bem, depois desceu os olhos para suas mos paradas. Aquele comportamento era muito estranho nele. E o pior era que vinha notando-o com cada vez mais freqncia ultimamente. No entendia o que estava acontecendo.
Maggie, sem ter mais o que fazer ali, voltou para a sua sala, tendo o cuidado de fechar a porta que dava para o escritrio de seu patro.
Ao sentar-se  sua mesa, involuntariamente, comeou a pensar sobre o que vira. E se Kane estivesse pensando em, de alguma forma, mudar sua vida? Talvez estivesse cansado dali e quisesse montar uma firma em outro lugar? Talvez j estivesse cansado daquela vida de alto executivo e quisesse partir em uma viagem sem compromissos ao redor do mundo? Kane j falara disso, certa vez. Falara sobre sua paixo pelo mar, pela aventura de enfrent-lo sozinho...
Mas Maggie no queria que ele se fosse para parte alguma. Se isso acontecesse, perderia seu emprego e... perderia Kane tambm. Sabia que precisava parar de pensar nele assim, mas no conseguia.
No entanto, no havia como negar que sempre sentira algo especial em relao a seu chefe. Desde o comeo. Alis, qualquer mulher com sangue nas veias o acharia extremamente atraente. Mas jamais imaginara que ele pudesse olh-la de forma diferente... Tinha bom senso e seus instintos lhe diziam que no correspondia ao tipo de mulher que despertaria a ateno de um homem como Kane. Mas sempre justificava seus dizendo para si mesma que sonhar no era proibido...
Claro que tinha sua prpria vida. Uma vida que se tornara mais solitria desde que seu marido, Tom, morrera em um acidente de carro na volta de uma caada, havia dois anos. Olhou, instintivamente, para sua mo esquerda. Fazia apenas seis meses decidira tirar o anel de noivado e a aliana, que usava no mesmo dedo. Ainda se surpreendia com a falta das jias.
Fazia pouco tempo que enviuvara quando fora designada como assistente pessoal de Kane, para substituir a secretria dele que sara para usufruir de sua licena-maternidade. Assim, acabara por dedicar-se completamente ao trabalho.
Quando, depois de algum tempo, a secretria de Kane decidira permanecer em casa com o filhinho, ele convidara Maggie para assumir a posio de assistente em carter permanente. Era um excelente emprego e ele era um chefe maravilhoso... Ela o adorava.
O que Kane sentia a seu respeito, porm, era outro assunto. Talvez nem mesmo a notasse de fato. Via-a como uma funcionria exemplar, nada mais.
Perturbada com tais pensamentos, Maggie sentiu o peito se apertar. E mais ainda quando tomou conscincia de que Kane devia, ainda, imaginar que continuava casada... Por vrias vezes ele fizera comentrios sobre seu marido, mas Maggie, em todas as ocasies, no quis esclarecer seu atual estado civil. Ora, como seu relacionamento com Kane era estritamente profissional, no via razo para inform-lo a respeito do que acontecia em sua vida particular... Ainda assim, ela imaginava se no deveria deixar bem claro para ele que era uma mulher livre...
Talvez fosse melhor no, conclua mais uma vez. No queria estragar o relacionamento que tinha com Kane e esperava que ele no estivesse planejando algo que viesse, de alguma forma, a fazer isso.
Alm do mais, sua deciso de ter um filho devia ser suficiente para colocar um ponto final em qualquer pensamento que pudesse ter em relao a seu chefe. E fora to fcil conseguir o que queria! No momento, porm, comeava a pensar se agira de forma correta... No pela criana, mas as coisas em sua vida no estavam se encaixando da maneira como esperava.
Respirou fundo, tentando afastar pensamentos ruins, e voltou ao computador, imaginando como poderia contar sobre sua gravidez a Kane.
- Vai ter que ser hoje - murmurou para si mesma. - No vou mais arranjar nenhuma desculpa.
Kane a viu sair da sala e no conseguiu conter um resmungo de inveja.
L estava uma mulher que no tinha com que se preocupar, avaliou. Era a assistente mais eficiente que j tivera, sempre calma e sorridente, sempre pronta para ajudar e a achar qualquer coisa que lhe fosse pedida.
No conseguia imaginar como sobrevivera sem ela at o dia em que Maggie surgira para organizar sua vida. s vezes, chegava a achar que ela sabia mais sobre a companhia do que ele prprio. Ela era magnfica. E seu marido, o mais feliz e sortudo dos homens! Imaginava se ela seria to maravilhosa em casa quanto era no escritrio...
Era estranho, porm, que, em dois anos trabalhando juntos, jamais tivesse conhecido o marido de Maggie. Mas devia entender, j que ela conseguia manter-se sempre distante e sbria em seu relacionamento... Nunca levava nada para o lado pessoal.
Sua assistente estava sempre pronta para trabalhar, e trabalhar bem. O que vinha a calhar, pois ultimamente ele sabia que seu trabalho na firma estava terrvel e que Maggie era sua grande ajuda. Conseguia apenas pensar em uma nica coisa e isso o estava deixando quase louco. Se no descobrisse depressa quem naquela companhia estava carregando seu filho, enlouqueceria, com certeza.
Cerrou os olhos, pensando na loucura de toda aquela situao. No entanto, tudo comeara de forma relativamente sbria e s.
Quando seu amigo, Bill Jeffers, tomara aquele susto com a ameaa de cncer e o procurara, estivera disposto a fazer qualquer coisa para ajud-lo. Levara o amigo para fazer uma consulta com seu primo, excelente oncologista, e depois acompanhara-o em todos os exames diagnsticos, inclusive acompanhando-o  clinica de fertilizao, na qual ele deveria deixar seu esperma depositado para o caso de, depois do tratamento radioativo, ter sua capacidade de reproduo afetada.
Kane at se surpreendera quando o tcnico do laboratrio sugerira que ele prprio fizesse o mesmo, at para deixar Bill mais  vontade. E, naqueles tensos momentos, ele no pensara duas vezes na tentativa de ajudar o amigo como pudesse.
O tratamento radioterpico foi um sucesso e Bill estava timo agora. Meses atrs, ele ligara para dar a notcia sobre a gravidez de sua esposa, Tracy.
Kane lembrava-se agora de ter brincado com o amigo, indagando se ele fizera uso do esperma que depositara na clnica. Bill jurou que no, mas, assim que desligou, Kane comeou a pensar com maior seriedade sobre o assunto.
Lembrava-se de seu prprio depsito. No voltara l, mas, na manh seguinte, ligara para o laboratrio pedindo que seu esperma fosse destrudo. Foi ento que o pesadelo comeou.
A amostra que deixara fora usada, por engano, semanas antes. E, pior ainda, por algum que trabalhava em sua companhia! A clnica se recusara a dar-lhe o nome da mulher. Por questes de tica, mesmo tendo ele ameaado lev-los  justia.
Desde ento, Kane passara a imaginar qual das inmeras mulheres que trabalhavam na Kane Haley e Associados poderia estar carregando seu filho.
Seu irmo, Mark, aconselhara-o a esquecer o fato, em uma das partidas de; tnis que jogavam aos domingos. Mas no era assim to fcil esquecer. Mark, muito bem casado, pai de dois filhos, com uma vida estvel e feliz, no podia entender o que ele passava. 
Mesmo no tendo inveja do irmo, Kane estava muito consciente das diferenas em suas vidas, embora tivessem crescido na mesma famlia. Mark acreditava em casamentos felizes, por exemplo... Claro, ele vivia um casamento de sonhos. Kane, ao contrrio, sabia por experincia prpria que os casamentos felizes eram raros.
As palavras de Mark, tentando dissuadi-lo de se preocupar com o que ocorrera, ainda estavam em sua mente. Ele dissera que seria impossvel saber quem era a mulher. Mas Kane no conseguia deixar de pensar. Simplesmente no conseguia. Precisava encontrar seu filho de alguma forma. E Mark chegara a lhe dizer que aquele no era seu filho. Que fora ele quem cedera o esperma, como se livrando dele. Aconselhou-o a encontrar uma nova esposa e ter seus prprios filhos, esquecendo-se do banco de esperma. Falara do banco de esperma como uma nova verso do poder do senhor feudal, que espalhava suas sementes pelo ventre das vassalas e depois no se importava com os filhos que nasciam dessa unio breve e sem maiores preocupaes.
Kane no aceitava tais idias. Era presidente da firma, mas no queria pensar em suas funcionrias como simples vassalas. No entanto, as ltimas palavras de Mark ainda o assombravam:
 Para que quer descobrir quem  a mulher, afinal? Para estragar a vida de um casal que conseguiu ter um filho com sua ajuda, mesmo que involuntria? Vamos, Kane, essa mulher no vai querer voc em sua vida! Encare os fatos! Voc seria apenas um intruso! 
 Eu... poderia ajudar... - rebatera.  Poderia ser como um... tio. Chegar no Natal, dar presentes... Garantir a educao dessa criana...
- Ah, eu desisto! Voc  cabea-dura demais para meu gosto! - Mark largara a raquete e abandonara o jogo, aborrecido.
Kane era teimoso. Quando punha uma idia na cabea no desistia enquanto no conseguia o que queria. E ele sabia de antemo que no desistiria de seu intento. No deixaria de tentar descobrir quem estava com seu filho no ventre.
A ligao existente entre pai e filho era-lhe muito importante, afinal o relacionamento dele com o pai era sua melhor herana.
Estava decidido a descobrir quem estava esperando seu filho e o faria. S no sabia ao certo como agiria depois. J chegara a coagir quatro mulheres da firma, imaginando que poderiam ser elas, e causara vrias cenas constrangedoras... Mas fora vlido tentar, argumentava consigo mesmo. E, pelo que sabia, no havia mais mulheres grvidas na Kane Haley e Associados...
Passou a mo direita por entre os cabelos, pensativo. Precisava voltar  clnica, no havia outra sada. Iria amea-los novamente, com o poder da justia, e for-los a contar-lhe quem era a mulher. 
Decidido, apertou o boto do interfone e chamou, firme:
- Maggie!
- Sim, senhor?
- Procure o nmero da Clnica de Fertilizao Humana Lakeside.
Ao ouvir aquele nome, Maggie sentiu o cho desaparecer de sob seus ps, e sem conseguir conter-se exclamou baixinho:
- Oh, no...
A breve exclamao contida, do outro lado da linha, preocupou-o, ento perguntou:
- Voc est bem?
- Sim... - Ela parecia sem flego, mas sua voz era forte. - Poderia repetir o nome da clnica?
- Lakeside. Quero falar com o tcnico responsvel. Coloque-o na linha assim que puder.
- Pois no, senhor.
Kane reclinou-se na cadeira, tamborilando os dedos sobre a escrivaninha e imaginando o que diria ao homem. J estava na hora de ser duro, concluiu.




























CAPTULO II

Maggie baixou os olhos para suas prprias mos e constatou que elas estavam trmulas e midas. Quando Kane lhe pedira para ligar para a clnica ela quase tivera um ataque do corao, pois era exatamente o mesmo local onde se submetera  inseminao artificial cinco meses atrs. Por que agora ele teria algum interesse em entrar em contato com o laboratrio?
Fosse o que fosse, teria de esperar at segunda-feira. Fizera a ligao, mas s ouvira o recado na secretria eletrnica informando que a clnica no funcionava s sextas-feiras.
Ao passar a informao, Kane, impaciente e nervoso, resmungara algo, mas nada revelara sobre o que queria tratar com o laboratrio.
Maggie respirou fundo, tentando normalizar as batidas do seu corao. Sabia que era chegada a hora de contar ao patro sobre a sua gravidez. Tinha de encontrar as palavras certas para faz-lo, e no podia protelar por mais tempo. No podia mais continuar com aquela situao angustiante.
De repente, ouviu um rudo atrs de si e teve um sobressalto.
Deu meia-volta e viu-se diante de Sissi, que entrara em sua sala para entregar a correspondncia diria da empresa.
- Ol, Sissi - cumprimentou, sorrindo para a mulher baixinha que separava os envelopes a serem deixados ali. - O que h de novo no mundo da Kane Haley e Associados?
- Bem, vejamos... - Sissi murmurou, atenta a seu trabalho. - Jolene Brown, do terceiro andar, disse que, j que estamos implantando uma creche, teremos de implantar um centro de cuidados para animais de estimao tambm.
- Animais de estimao?!
- Exatamente. Parece que est com problemas com um cachorrinho que herdou de algum... O bicho est comendo toda sua moblia enquanto est fora de casa - explicou com uma risadinha marota. Em seguida acrescentou: - E ela preferia t-lo por perto enquanto trabalha.
- No seria melhor chamar um psiclogo para ces? - Maggie sugeriu, rindo.
-  verdade - Sissi concordou. - Acho que vou transmitir sua sugesto a ela. Nesse meio-tempo, tem alguma novidade quente que gostaria que eu espalhasse?
- Novidade? - Maggie estranhou. - No... Por que pergunta?
- Por nada... Nada mesmo.  o hbito, pois a cada sala que entro fico sabendo de algum fato novo.
- Ento, querida, sinto frustr-la, pois tudo por aqui est na mesmice de sempre - respondeu bruscamente. Sissi estranhou aquela reao e despediu-se rapidamente.
Quando a mulher se foi, Maggie mordeu o lbio inferior, culpando-se por sua reao um tanto brusca.
Naquele momento, o telefone tocou, assustando-a.
- Al! - atendeu, um pouco alarmada, mesmo sem saber ao certo por qu.
- Maggie? - respondeu sua amiga Sharon. - Voc est bem?
- Claro que sim...  que... Bem, eu estava totalmente concentrada, arrumando as coisas por aqui, quando o telefone tocou, por isso acabei tendo um sobressalto.
- Desculpe-me por interromp-la, mas estou indo para Copper Penny com um grupo de amigos, para almoar, e imaginei que voc gostaria de vir junto. Afinal, esse restaurante  o seu preferido...
Maggie sorriu. Como assistente pessoal do dono da firma, no era includa em reunies informais do pessoal com muita freqncia. Embora quisesse muito ir, sabia que devia recusar o convite.
- Eu adoraria, Sharon, mas tenho muito trabalho a fazer. Quero ver se uso a hora de almoo para adiant-lo, assim no precisarei ficar aqui at muito tarde - desculpou-se.
Na verdade, trabalho no era, de fato, o problema, mas, sim, dinheiro. Precisava economizar cada centavo por causa do beb que esperava. - Vou ficar no escritrio e comer um lanche.
- Quer que eu traga um de l para voc?
- No, obrigada. Eu trouxe um sanduche de casa. -Est certo, dessa vez vou deixar passar, mas saiba que vamos sentir sua falta. Afinal,  voc quem torna nossas reunies animadas.
Maggie conversou com a amiga ainda por alguns momentos, depois desligou sentindo uma ponta de inveja. Sharon tambm estava grvida, mas no precisava esconder o fato. Alm do mais, tinha muitos amigos que a apoiavam, isso para no mencionar o pai da criana.
De repente, um intenso sentimento de solido a tomou. Colocou a mo sobre o ventre, pensando no beb. Teria feito a coisa certa?, indagava-se. Conseguiria ir at o fim sozinha? E seria justo para com a criana? Poderia ter esperado um pouco mais para tomar tal deciso. Mas no tivera ningum em quem confiar, algum para discutir sua idia... e agora seu patro iria se tornar seu nico confidente...
Com um leve menear de cabea decidiu pensar apenas no trabalho durante a prxima hora e, apressada, dirigiu-se ao Departamento Financeiro, para discutir uma proposta de oramento que lhe tinha sido enviada naquela manh.
Ao voltar, imaginou que seu chefe tivesse sado para almoar. Hannah e Kate, as duas secretrias do escritrio ao lado, tambm no estavam mais no prdio. Havia um pesado silncio ali.
Retirou a sacola de papel que estava na gaveta de baixo de sua mesa e espalhou o contedo sobre sua mesa. Um simples sanduche de manteiga e gelia de morango, uma caixinha de batata frita e uma ma. Comia a mesma coisa no almoo havia um ms e no sentia mais nenhum entusiasmo em repetir a dose.
- Vai comer aqui novamente? - perguntou Kane, saindo de seu escritrio e fazendo-a ter um sobressalto com sua presena inesperada.
Maggie tornou a embrulhar o lanche, em uma atitude quase defensiva, e encarou-o, achando-o, mais uma vez, muito atraente. E era estranho como isso vinha acontecendo com maior freqncia ultimamente.
- Bem, tenho certeza de que sua comida deve ser... nutritiva, mas no creio que seja to deliciosa assim... - Kane comentou, esboando um meio-sorriso.
- Ora, sr. Haley, acontece que no momento no estou em condies de pagar por outro tipo de comida... - Maggie se interrompeu, e sentiu que enrubescia, quando percebeu que havia falado demais. Desejava que ele se afastasse, que seguisse para o elevador e a deixasse sozinha.
No entanto, ele no parecia estar com pressa. Ao contrrio. Aproximou-se, sentando-se em um dos cantos da escrivaninha, uma perna solta no ar, como se estivesse disposto a permanecer e observar enquanto ela se alimentava.
- Est precisando de um aumento? - brincou.
- No, senhor, eu...
Kane riu.
- No se preocupe. Queria mesmo lhe contar que fiz uma reavaliao de seu trabalho, h duas semanas, e tenho certeza de que haver novidades em seu pagamento deste ms.
- Oh, esta  uma noticia muito boa... - Maggie queria agradecer, mas no queria parecer desesperada. Mesmo estando assim. - Eu... Obrigada, sr. Haley.
- No agradea. Voc  muito boa em tudo o que faz e deve saber disso... Prefiro perder um brao a perder voc.
Maggie engoliu em seco, sentindo-se culpada. Como poderia contar a ele?! Afinal, Kane sempre fora muito bom e ela o trara com aquela gravidez... Mesmo trabalhando arduamente, teria de deix-lo dentro de alguns meses...
Lembrou-se da creche que estava sendo construda bem ali, no prdio, e da qual ele fazia questo de saber a cada semana. Seu beb poderia ficar ali logo que fosse possvel. Mas isso ainda levaria muito tempo.
- No vai almoar, sr. Haley? - perguntou, esperando convenc-lo a sair.
Kane respirou fundo e Maggie percebeu que aquela expresso preocupada estava em seu rosto novamente. - No, acho que vou ficar por aqui. Tenho certeza de que, mesmo se tentasse, no conseguiria comer nada.
Maggie observou-o, atenta. Kane parecia cansado. E ela surpreendeu-se pensando que gostaria muito de saber qual era o problema que o incomodava para poder ajud-lo...
- No tem filhos, tem, Maggie? - A pergunta veio de repente, desconcertando-a.
- No... - Ela no sabia como responder ao certo. Kane, porm, envolvido com seus pensamentos, no parecia perceber o embarao de sua assistente.
- Fico imaginando como seria ter um filho - prosseguiu, com expresso alheia. E, distrado, pegou metade do sanduche que ela trouxera, dando-lhe uma mordida. - Alguma vez j imaginou? - perguntou, olhando-a bem dentro dos olhos, como se pudesse encontrar a resposta ali.
Maggie sentiu a garganta se apertar. Os olhos que a fitavam estavam to prximos, e eram to negros... - Sim, sim... claro  tartamudeou.
- H algo de especial nos bebs, no acha? - Kane perguntou, enquanto esboava um sorriso.
Maggie no conseguia desviar o olhar do rosto dele e, aos poucos, sentiu como se a sala ao redor desaparecesse. Os olhos de Kane pareciam-lhe maravilhosos. E lembrava-se de ter ouvido dizer que os olhos eram as janelas para o corao... Por um momento perguntou-se se Kane teria uma alma maravilhosa tambm.
Estava inclinando-se muito devagar para a frente, em direo a ele, absolutamente magnetizada.
- Pode me passar esse guardanapo? - ele pediu, despertando-a daquele devaneio.
Maggie notou que havia um pouco de manteiga no canto de seu lbio inferior.
- Meu Deus! Comi todo seu sanduche! - Kane exclamou, ao se dar conta do que tinha feito. Maggie baixou os olhos para a mesa, como se s naquele momento retornasse  realidade. No entendia o que estava acontecendo consigo.
Aquela atrao extrema que sentia por seu chefe quase a levava a fazer papel de tola... A gravidez teria alguma influncia em sua atitude?, indagou-se. E ele teria notado?
- Por que me deixou com-lo todo? - Kane insistia.
- Bem... Como eu poderia impedi-lo, sr. Haley? Parecia to faminto que...
- , tem razo. Mas seu lanche no foi suficiente, sabia? Agora estou com fome de verdade. Sinto muito pelo que fiz. Mas... tenho uma idia para consertar minha m ao: vou lev-la para almoar.
Maggie prendeu a respirao. Aquele era o nico convite que, apesar de querer muito, no podia aceitar. Precisava pensar depressa em uma desculpa para recusar o convite.
 So quase treze horas - murmurou. - Meu horrio de volta  s treze...
- Eu sei. Mas, como a sorte est a seu favor, quem dita as regras por aqui sou eu. Portanto...
Calada, Maggie avaliava a situao. No queria ficar a ss com ele por mais tempo. A atrao que sentira parecia-lhe perigosa. Alm do mais, precisava de tempo para encontrar uma maneira de dizer ao chefe que estava grvida. Porque a situao j estava ficando insustentvel e queria resolver tudo naquele mesmo dia.
- Vamos! No vou aceitar uma recusa... - Kane j se levantara e a olhava, sorrindo.
-  que tenho muito trabalho a fazer e...
- Deixe isso para l. Vamos almoar. E isso  uma ordem.
- Sr. Haley...
- Eu lhe devo isso! Alm do mais, assistentes pessoais merecem tratamentos especiais.
No havia mais como recusar-se. E, quase sem notar, Maggie seguiu-o at o elevador, sentindo que deixava seu porto seguro.


Kane j havia desenvolvido um plano. S precisava encontrar a maneira certa de exp-lo.
Iria fazer com que sua assistente o ajudasse a descobrir seu filho. Tinha certeza de que ela daria ao caso toda sua ateno e que agiria com sua habitual eficincia, o que era excelente naquelas circunstncias.
No sabia ao certo como envolv-la no assunto, ainda, pois temia que ela opusesse alguma resistncia. Afinal, conhecendo Maggie como conhecia, sabia que ela diria que se tratava de um assunto muito pessoal e que no lhe dizia respeito... No que no deixaria de ter razo. Kane teria de encontrar um meio de convenc-la.
Ele decidiu que usaria aquele almoo para criar uma atmosfera de companheirismo entre ambos. Precisava fazer com que Maggie se sentisse uma amiga, para que o ajudasse...
Sabia que no era algo muito bonito o que estava fazendo, mas no via outra alternativa.
Era isso mesmo! Iria deixar de lado todo e qualquer escrpulo se queria, de fato, encontrar a mulher que esperava um filho seu.
Quando chegaram ao seu restaurante favorito, passou os olhos ao redor, como sempre fazia e, nesse gesto, viu, pela abertura da camisa que ela usava, uma parte de sua lingerie.
Maggie tinha um excelente gosto, avaliou, rapidamente. Sentiu certo prazer com a constatao e nem se sentiu culpado por isso. Afinal, nada significava. Maggie era casada, estava fora de seu alcance.
Tocou-a de leve nas costas, para indicar-lhe o caminho e, mais uma vez, gostou da sensao que tomou conta de si. Mas, como no momento estava preocupado com outra coisa, no deu muita importncia para aquela descoberta.
O Shoreline Grill combinava muito bem uma comida extica e deliciosa com a privacidade de cabines separadas para seus freqentadores. Era, realmente, um restaurante de primeira classe.
O gerente aproximou-se e encaminhou-os pessoalmente a um dos locais que considerava ser dos melhores.
-  sempre um prazer rev-lo, sr. Haley - cumprimentou, passando-lhe o cardpio, assim que Kane e Maggie se acomodaram.  Faz j algum tempo que no aparece...
- , no tenho sado muito ultimamente.
- Mas agora, com certeza, vamos v-lo com mais freqncia - sugeriu o homem, cheio de maneirismos, lanando um olhar significativo a Maggie. Em seguida, afastou-se sem dar tempo a Kane de rebater a insinuao pouco educada.
Maggie olhou-o em silncio, parecendo estar pouco  vontade.
Durante alguns instantes o silncio envolveu-os. Nenhum dos dois conseguia iniciar uma conversa. 
Decididamente, as coisas no estavam caminhando como ele planejara. Isso era muito ruim, ele concluiu. 
Kane sentia-se tenso, e de uma forma que quase nunca lhe ocorria. Devia ser por causa do plano que criara, avaliou. Afinal, ele era manipulador, embora fosse necessrio s-lo na presente situao.
- Maggie... - comeou, tentando parecer firme. - Ns j trabalhamos juntos h algum tempo e acredito que esteja na hora de trazermos nosso relacionamento para um plano mais... pessoal.
- No, sr. Haley... - ela recusou, empalidecendo. - No acho que isso seja certo.
Kane no reconheceu a assistente bem-humorada com quem convivia no escritrio h tanto tempo. Estranhou aquela reao.
Com desenvoltura, Kane pegou a mo, pequena e macia, que estava sobre a mesa e segurou-a, tentando deix-la mais  vontade.
- S estou me referindo  maneira como voc me trata, Maggie. Acho muito formal para o tipo de relacionamento que temos - explicou. - Quero que me chame de Kane de hoje em diante... A no ser, claro, quando estivermos nas reunies da diretoria.
- No creio que esta seja uma boa idia... Tambm no acredito que conseguiria cham-lo pelo seu primeiro nome.
Kane encarou-a por segundos, percebendo, pela primeira vez, o tom intenso de azul dos olhos de sua assistente.
Ela ficaria linda usando apenas jias e... lingerie rendada, foi o pensamento que lhe ocorreu.
Em seguida, repreendeu-se por aquele pensamento. Afinal, Maggie, embora encantadora, era uma mulher casada. No devia tampouco deixar-se levar pelo perfume suave que ela usava e que, agora percebia, era muito agradvel.
- Basta tentar - ele insistiu, usando seu tom de voz mais persuasivo. - Sei que no encontrar dificuldade em me chamar de Kane.
- Acho que a responsabilidade vem sempre em primeiro lugar - Maggie continuou argumentando, teimosa. - Gosto de tudo em ordem, no seu devido lugar, e, definitivamente, sei qual  o meu lugar.
Kane ainda a olhava, sem entender muito bem qual era o motivo de tamanha resistncia. Percebia, tambm, que sua assistente estava muito tensa.
Ocorreu-lhe que talvez Maggie sentisse medo dele... No, no devia ser isso, porque ela era sempre to firme quando estavam trabalhando... Costumava argumentar de forma extenuante quando tinha certeza de que estava certa sobre alguma coisa. Enfrentava qualquer dificuldade que aparecesse no trabalho com tanta garra que mesmo ele, s vezes, invejava a maneira de ser da assistente.
Era estranho, porm, porque sentia-a muito frgil e tinha vontade de proteg-la.
Pediram o almoo e, enquanto esperavam, Kane procurou encontrar um assunto qualquer, que afastasse os pensamentos que porventura a estivessem perturbando. Havia muitas pessoas no restaurante e era sempre interessante fazer comentrios sobre os outros.
- Est vendo aquela mulher alta - comeou -, com vestido vermelho... Sabe a quem me refiro?
- Sim - Maggie respondeu, sem atinar com o que ele queria dizer.
- Eu poderia jurar que ela est grvida...
Maggie parou de mastigar e olhou-o, com expresso indagativa. Como se no estivesse entendendo o que Kane queria dizer... Ou com medo do que ele poderia dizer em seguida.
- Tenho certeza! - Kane insistiu. - Eu diria... de uns cinco meses. O que acha?
- No sei... Cada gestao  diferente... O organismo de cada mulher reage diferente... - Ela estremeceu e sentiu a voz fraquejar. Pegou, lentamente, o copo e bebeu um grande gole de gua.
- Sabe, acho que estou ficando bom nisso de avaliar o perodo de gravidez das mulheres. Estou me interessando cada vez mais pelo assunto, sabe?
Maggie tentou sorrir.
- Verdade? Por qu? - perguntou, tentando no se sentir apreensiva.
Kane se inclinou para a frente, baixou a voz e indagou:
- J notou como, ultimamente, parece haver mulheres grvidas por toda parte? Parece uma epidemia!
Maggie arregalou os olhos e esboou um sorriso antes de concordar:
- , devo admitir que tenho notado isso tambm...
- Est vendo? No sou s eu que acho. Ento, posso ter certeza de que no estou ficando louco.
Mas ela, talvez, estivesse. Meneou a cabea, como para clarear os pensamentos, sentindo que havia coisas demais acontecendo, e em um espao de tempo muito curto, em sua vida.
Maggie tentava raciocinar para onde aquela conversa os conduziria... Lembrava-se do jeito alheio de seu chefe, do pedido que ele lhe fizera para ligar para a clnica, depois daquele convite inusitado para almoar, coisa que nunca fizera, e agora estava falando insistentemente sobre crianas e mulheres grvidas.
- Sr. Haley, o senhor est... apaixonado, ou algo parecido? - acabou por perguntar.
- Apaixonado? - Kane parecia estar em choque. - De onde tirou essa idia maluca?
- Bem,  que... fica falando sobre bebs e...
- Bebs? - Kane passou os olhos ao redor. - Quem falou em bebs?
- O senhor. E acho melhor dizer-lhe que...
- Espere um pouco, Maggie. Eu no estava falando sobre bebs. Estava apenas tentando conversar sobre alguma coisa. E, uma vez que tocou no assunto... No, no estou apaixonado de forma alguma!
Ela recostou-se  cadeira, apertando os lbios um contra o outro.
- Por que eu estaria falando sobre bebs? - ouviu-o perguntar, parecendo desconfiado.
- Apenas uma observao comum. Afinal, bebs despertam a ternura dos adultos, no?! Por que isso a faria pensar que estou... apaixonado?
Maggie encolheu os ombros, pensando no que dizer: 
- Normalmente, um homem que fala em bebs est pensando em se casar...
- Ah,  isso! Bem, para mim, o casamento  onde sempre tudo d errado!
Maggie franziu as sobrancelhas, sem entender. Seu casamento no dera certo, mas nem por isso deixara de ser a favor de tal instituio.
- O que tem contra o casamento? - No pde deixar de perguntar.
O garom se aproximou, trazendo o segundo prato da refeio, e a conversa ficou suspensa por instantes. Quando o homem se afastou, Kane respondeu:
-J vi muitos casamentos e sei alguma coisa sobre dois ou trs deles. Meu tio Joe, por exemplo, j se casou sete vezes e no tem inteno de parar. E, em todas as vezes, diz ter certeza de que a mulher  o amor de sua vida. A lua-de-mel  fantstica, mas, antes de completar um ano, ele j est pedindo o divrcio novamente.
Kane passou a comer, prestando ateno excessiva  comida. Maggie aproveitou a concentrao de Kane para observ-lo.
- J parou para pensar que o problema pode estar em seu tio e no no casamento em si? - comentou, apenas para dizer alguma coisa. Era o seu esprito combativo que a fazia retrucar sempre.
-  claro que sim. No sou ingnuo. Mas  apenas minha opinio, sabe? Sei que voc  casada e imagino que deva ser feliz. Alis, acho que deve se sentir muito bem porque parece-me que est... desabrochando.
Maggie pestanejou vrias vezes, sem acreditar no que ouvia. Afinal, estava viva h dois anos e seu chefe nem sequer sabia.
Kane continuava falando, mas ela j no o escutava. A ltima frase dita por Kane deixara-a trmula, insegura.
A comida estava deliciosa, mas Maggie no conseguia comer mais. Passou o resto do almoo brincando com ela pelo prato, esperando que seu patro no notasse o pouco que comera.
 medida que o tempo passava ia sentindo-se cada vez mais agitada e nervosa, e sabia que isso no fazia bem ao seu beb.
Precisava falar a Kane sobre sua gravidez. J havia tentado uma vez, mas ele no a deixara terminar a frase. Precisava faz-lo, e tinha de ser naquele momento... No podia deixar passar aquela oportunidade.
- Sr. Haley, h... h algo que tenho de lhe dizer. Kane consultou o relgio, como se estivesse com muita pressa.
- Diga logo, ento, porque temos de voltar ao escritrio para acertarmos aquele contrato, lembra-se? 
Maggie chegou a entreabrir os lbios, mas ele j estava se levantando e ajudando-a a fazer o mesmo. Parecia que a oportunidade se fora. Talvez fosse melhor, de fato, voltar ao trabalho por enquanto. Durante a tarde, com certeza, apareceria outra oportunidade para contar a Kane que estava esperando um beb.



CAPTULO III

A volta ao escritrio, porm, no se revelou a melhor opo. Havia servio acumulado e muitas coisas a fazer ao mesmo tempo.
Dividida entre tantos afazeres - o telefone que tocava o tempo todo, o contrato a ser assinado e mil outros papis que mereciam particular ateno -, Maggie no encontrou a oportunidade perfeita para conversar com Kane. E, pior do que tudo, era aquela voz de sua conscincia que insistia em tortur-la, dizendo-lhe que precisava contar a ele que estava grvida.
O problema era que o tempo para faz-lo no existia. E Maggie sentia que a qualquer momento seu chefe descobriria tudo. Afinal, ele afirmara estar se tornando perito na arte de descobrir quando uma mulher estava grvida...
E, quando viu-se a ss mais uma vez com Kane, no escritrio, Maggie teve a ntida impresso de que alguma coisa muito sria estava por acontecer. A expresso do rosto dele, quando ela entrou na sala, a deixou ainda mais tensa.
- Maggie - disse ele, em um tom que a fez estremecer. - Por que no se senta um pouco? - E indicou uma das poltronas que havia diante de sua mesa. - Quero lhe falar.
Ela obedeceu, sentindo a boca seca.
Kane percebera, convenceu-se. Devia ter-lhe dito tudo antes.
Viu-o sentar-se a seu lado e, cada vez mais apreensiva, deixou que ele segurasse sua mo.
- Maggie, estou satisfeito por termos nos conhecido melhor hoje - murmurou Kane. - Foi muito importante para mim, sabe? Porque agora que estamos, digamos, um pouco mais prximos, sinto que posso confiar em voc.
Maggie comeou a sentir-se mais aliviada. Ele queria algo... Ento, no teria de falar de sua gravidez. Kane ainda no notara nada...
- Eu gostaria que, em nome de nossa amizade, voc pudesse me ajudar - ele pediu. - Sei que voc gosta de manter tudo no campo profissional e esse  um dos atributos que mais aprecio em seu trabalho, mas... o que vou lhe dizer  pessoal. E, mesmo assim, gostaria de poder contar com sua colaborao. Estou com um grande problema.
Maggie engoliu em seco. Kane ainda segurava sua mo e ela estava gelada.
- Mas... - Maggie tentou falar, porm no encontrou as palavras certas.
- Sei que vai parecer loucura - Kane prosseguiu, muito srio. - No posso, porm, entrar em maiores detalhes agora. Vai ter de confiar em mim.
- O que... - Quando Maggie comeou a formular a pergunta, Kane a interrompeu novamente.
- H uma explicao lgica para tudo. O fato  que... algum neste prdio est carregando um filho meu. E preciso de sua ajuda para encontr-la.
Maggie arregalou os olhos. Pronto, ele estava a um passo de descobrir tudo. Estava perdida.
- Algum est... grvida? - sussurrou. - Mas... Como pode no saber de quem se trata?
- Porque foi feita uma inseminao artificial. Foi uma confuso que fizeram no laboratrio. Por isso lhe pedi para entrar em contato com aquela clnica. Foi l que tudo aconteceu.
Maggie engoliu em seco. Sentia como se a sala estivesse comeando a girar ao seu redor. Ao mesmo tempo, um zumbido estranho apoderou-se de seus ouvidos e uma nica palavra rebatia dentro deles: no, no, no, no...
- Maggie - Kane prosseguiu, implorando -, quero que saiba que tentei tudo o que estava ao meu alcance, mas no consegui descobrir nada. Por isso preciso de voc. Conhece a maioria das mulheres que trabalha aqui... Sei que poderia ter uma idia sobre quem  a mulher que est carregando o meu filho.
Maggie puxou sua mo de entre as dele com cuidado. - Ela deve estar com cinco meses de gravidez agora - Kane explicava.
Maggie estava atordoada. No pde conter o instintivo movimento de negao com a cabea. No, aquilo no podia ser verdade! No podia estar acontecendo!!
- No, no... -murmurou, como se pudesse, assim, afastar os terrveis pensamentos que cruzavam sua mente.
Kane, vtima de sua prpria preocupao, no parecia perceber a intensidade da reao que a assistente estava tendo. No notou sequer as lgrimas que apareciam em seus olhos.
- Se pudesse perguntar por a, falar com as mulheres que conhece - ele dizia. - Se conseguisse descobrir qualquer coisa sobre quem est grvida de cinco meses...
Maggie, de repente, soluou. Foi involuntrio, mas ele parou de falar e encarou-a. Viu-a levantar-se da poltrona e percebeu as lgrimas em seu rosto.
- Maggie! O que houve?!
O telefone, mais uma vez, tocou. Ela se voltou, no ato automtico de atender. Mas no respondeu, passando o aparelho a Kane.
-  para o senhor  murmurou.
Confuso, ele pegou o fone e atendeu. E, sem que pudesse impedi-Ia, viu Maggie sair correndo de sua sala. Em seguida ouviu as portas do elevador abrindo-se e fechando-se. Rapidamente, desvencilhou-se do interlocutor, desligou o telefone e saiu no encalo da assistente.


Kane conseguiu alcan-la antes que chegasse a seu carro. Chegou a pensar que Maggie j  tivesse recobrado o controle, mas, quando ela voltou o rosto molhado em sua direo, ele pde perceber, com nitidez, a tragdia que se estampava naqueles magnficos olhos azuis.
O instinto o fez ter certeza de que algo muito grave acontecera, e sentiu vontade de tom-la em seus braos e confort-la.
- Maggie, o que houve?! - perguntou outra vez, resistindo ao impulso de pux-la para si. No entanto, segurava-a pelos ombros e uma estranha e intensa vontade de beij-la o tomou. Apenas para confort-la, repetia-se. - O que est acontecendo com voc, Maggie? Eu disse ou fiz algo de errado?
- No... - Ela confirmava as palavras gesticulando enfaticamente a cabea, soltando o resto dos cabelos que ainda no haviam se desprendido do coque. -  que... tenho de ir... Por favor, sr. Haley... 
Maggie parecia estar com medo de algo. Talvez dele... E Kane no podia suportar tal pensamento. Soltou-a, tentando sorrir.
- Por favor... Preciso saber o que h. O que faz... 
 Nada. No  nada.
Kane tomou-lhe de leve o queixo.
- Vai ter de me contar. Sabe disso, no? - A voz era persuasiva, suave.
- No, sr. Haley. - Queria poder dizer a ele que no lhe interessava, mas sabia que, muito pelo contrrio, interessava-lhe e muito, sim. Tanto que no podia suportar a verdade. No entanto, no podia dizer a ele.
- Por favor... - implorou. - Preciso ir para casa. Os dedos longos dele apertaram com suavidade seus braos.
- Por qu?
A expresso de Kane era preocupada, mas seus olhos traam a impacincia que sentia. Maggie sentiu que chegara a hora de revelar tudo. Respirou fundo e murmurou:
- Este  um momento terrvel para lhe dizer, mas eu... - E a voz lhe faltou, enquanto o olhava, fragilizada. - Diga, Maggie. Voc... O que houve? Est zangada comigo? Cansada de seu trabalho? Est a ponto de se divorciar? O qu?
Ela fechou os olhos, sentindo-se derrotada.
- Estou grvida - revelou. E, em seguida, olhou para Kane, atenta para a reao dele, uma vez que a verdade estava dita.
Havia uma expresso nova nos olhos de Kane e Maggie no conseguiu entend-la.
- Bem... parabns! - cumprimentou ele, depois de alguns segundos de hesitao.
- Obrigada.
Ela tentou se livrar de suas mos e afastou-se dois passos. -Agora preciso ir embora... - Tinha urgncia em ficar sozinha. Precisava de tempo...
O aperto daqueles dedos em sua pele apenas se intensificou.
Maggie estava grvida, Kane raciocinava. Provavelmente, isso nada tinha a ver com ele... Ela era casada, afinal. E no parecia grvida, portanto, devia ainda estar no comeo da gravidez.
- Imagino que esteja ansiosa para voltar para casa para contar a novidade a seu marido - falou, no entendendo em absoluto o que estava acontecendo.
Maggie entreabriu os lbios, para dizer  ele que no tinha marido algum, mas preferiu calar-se. No entanto, Kane notou seu gesto e seus olhos tornaram-se mais densos.
- Venha - disse, ento, decidido. - Vou lev-la para casa.
- No, no. Posso dirigir.
- No, no pode. Est muito... sensibilizada.
Algo estava errado e Kane sentia que devia cuidar do caso. Se tinha a ver com o marido dela, talvez Maggie precisasse de sua presena. No sabia por que estava pensando assim, mas algum instinto lhe dizia para cuidar dela e era isso o que iria fazer.
Levou-a consigo at seu Mercedes prateado e ela ainda protestou:
- Sr. Haley, estou bem...
- No est, no. Vamos, entre em meu carro antes que eu mesmo a coloque l dentro.
Maggie obedeceu, mas lembrou-se de repente, alarmada:
- O contrato!
- Para o inferno com o contrato, Maggie! - Kane j se sentava atrs do volante. - Seu bem-estar  muito mais importante do que qualquer contrato.
Seus olhares se cruzaram por instantes, mas ela logo abaixou o rosto. No tinha coragem de encar-lo. 
Aquela reao apenas reforou o pressentimento que Kane tivera. De fato, havia uma situao mal resolvida, ali. Talvez o marido, talvez outra coisa. Mas iria acompanh-la at sua casa e tentar solucionar a situao.
A coisa mais importante para ele, no momento, era saber que Maggie estava bem e segura.
Quando saiu da garagem para a rua, olhou-a de soslaio. Maggie estava grvida. Precisava acostumar-se com a idia. E no tiraria nenhuma concluso precipitada sobre o fato. Fizera-o antes, em relao a outras mulheres da firma e fora muito embaraoso quando a verdade viera  tona. Elas sempre tinham explicaes normais para a gravidez que nada tinham a ver com ele. Depois de alguns vexames, Kane jurara no se meter em situaes assim outra vez.
Alm do mais, desta vez havia um marido na histria... E talvez fosse exatamente por isso que Maggie estava to transtornada... Ele falara na gravidez e l estava ela, grvida! Talvez o marido no tivesse gostado da idia, tambm podia ser que houvesse algo de errado com o beb...
Olhou para sua assistente mais uma vez e encontrou o que procurava: ela no usava uma aliana.
Aquilo era muito estranho. Lembrava-se de t-la visto usando uma. E s notara aquele detalhe porque a aliana era muito parecida com a que comprara para sua ex-esposa, Crystal, anos antes. Isso j era passado, lembrou-se, mas seu corao estava batendo mais rpido.
Repetia a si mesmo que no deveria ser tolo, que a falta da aliana no significava nada... Muitas mulheres tiravam as alianas quando engravidavam. Os dedos costumavam inchar...
Seguiu as indicaes que Maggie lhe dava e chegaram a um prdio de apartamentos.
- Vou subir com voc - Kane avisou, em tom decidido. - Quero ter certeza de que tudo vai ficar bem. 
Maggie encarou-o por alguns segundos, mas no perguntou por que ele achava que precisava de ajuda. Foi na frente, fazendo o caminho de todos os dias, sentindo-o logo atrs de si.
Quando entraram no apartamento, teve a impresso de que Kane esperava encontrar algo que pudesse explicar-lhe tudo. Ele deixou as chaves do carro sobre uma mesinha e comeou a observar tudo o que tinha ao alcance da viso, dentro do apartamento.
Era um apartamento modesto, em um prdio que j tivera dias melhores. Quando conseguira alug-lo, Maggie o decorara com harmonia e bom gosto. Mas um detalhe no escapou de seus olhos: havia caixas de objetos e livros a um canto da sala, como se uma arrumao tivesse sido interrompida.
- Vai se mudar? - Kane quis saber, embora a resposta para aquela pergunta fosse bvia.
- Sim. Preciso de um lugar mais barato. E os moradores deste prdio no gostam muito de crianas... 
Kane assentiu, lembrando-se do tempo em que costumava reclamar das crianas que brincavam no ptio de seu antigo apartamento, antes de comprar a cobertura em que vivia atualmente.
De maneira discreta, tornou a passar os olhos ao redor, percebendo a ausncia de qualquer trao que denunciasse uma presena masculina.
- Maggie, vai ter de me dizer a verdade - murmurou. 
Ela o encarou, os olhos suplicantes.
- Vou?
- Vai. Onde est seu marido?
- No tenho marido. Ele... morreu h dois anos. 
Kane tornou a assentir. Tornava-se tenso.
- Namorado?  insistiu.
Ela negou com um gesto quase imperceptvel de cabea.
Kane baixou os olhos at seu ventre e seu rosto tornou-se ainda mais srio.
- De quanto tempo est? -- quis saber.
Maggie ia voltar-se, mas ele a segurou pelo brao. Sentia-a to frgil que seus dedos se afrouxaram quase que de imediato.
Olhou-a nos olhos e repetiu a pergunta: 
- No pode estar de cinco meses... Pode? 
Maggie assentiu muito de leve.
- E... foi na Clnica Lakeside?
Mais uma vez, ela confirmou.
Kane sentiu que seu corao se enchia, que seu peito Parecia querer explodir. E, naquele instante, fez a nica coisa que imaginou que poderia fazer: beijou-a. Foi um beija suave, casto, mas que, a seu ver, selava uma ligao de um modo que nada nem ningum mais poderia interromper.
- No podemos saber com certeza - Maggie lembrou-o, afastando-se um pouco.  Vamos ter de esperar at segunda-feira e verificar com a clnica.
Kane assentiu. Sentia-se bem, leve. O mistrio estava descoberto. Encontrara seu filho. Mas, ao mesmo tempo, novas questes nasciam em sua mente. E agora, o que fazer?
Maggie devia estar passando pelo mesmo tormento, porque j estava com as chaves do carro dele nas mos, entregando-as e encaminhando-o para a porta.
- V para casa e pense com calma a respeito disso tudo - dizia. - Na segunda-feira, se soubermos que  mesmo verdade, conversaremos.
Kane relutava em sair.
- Vai ficar bem? - perguntou. - Voc tem o nmero do meu telefone. Caso no se...
- V. Fique tranqilo e v. Eu s preciso descansar um pouco. Amanh j estarei bem.
- Certo...
Maggie fechou a porta assim que Kane passou por ela. No corredor, ele enfiou as mos nos bolsos e sorriu. Seu filho era real. Encontrara-o. E encontrara sua me tambm. Mas seu sorriso satisfeito foi desaparecendo conforme descia pelo elevador e se encaminhava para seu carro.
Deu-se conta, de repente, que aquele no era o fim de uma busca... Era apenas o comeo. No havia dvidas de que sua vida sofreria mudanas radicais daquele momento em diante. Estaria preparado para tanto?








CAPTULO IV

- E ento, o que voc acha que eu devo fazer agora? - Kane perguntou, olhando intensamente para seu irmo,  mesa da cozinha.
No havia amanhecido, ainda. O caf que j passava na cafeteira comeava a cheirar bem, lembrando-o de que estava sem comer desde o almoo do dia anterior. Kane ficara na rua, parado na frente da casa do irmo, esperando pelo primeiro sinal de movimento na casa, para poder tocar a campainha. Ele sabia que no iria conseguir conciliar o sono antes de falar com algum a respeito de tudo que lhe havia acontecido. E a melhor pessoa para ouvi-lo era Mark, seu irmo.
Mark bocejou e, meneando a cabea, ajeitou a gola do robe mais para cima, para evitar o frio da manh, e disse, pensativo:
- Depende do que "quer" fazer.
Ora, esperara tanto para falar com Mark e agora ele lhe lanava aquela frase... Mas esse era o problema, No estava certo do que queria fazer.
Inclinou-se para a frente, procurando as melhores palavras para se expressar:
- Olhe, estive pensando a noite toda e sinto que minha cabea vai explodir de tantas idias que passam por ela. Tenho os mesmo pensamentos repetidas vezes e... preciso de algo novo, de uma outra idia... Por favor, Mark.
Mark recostou-se  cadeira, enquanto sua esposa, Jill, servia caf em grandes canecas para ele e para Kane.
- No sei o que dizer - confessou. - Voc queria tanto saber quem estava esperando seu filho... Agora sabe, ponto final.
Jill recolocou a cafeteira no descanso e ergueu as sobrancelhas, apenas ouvindo. Em seguida ps uma grelha sobre o fogo e quebrou trs ovos em uma vasilha, batendo-os.
- Sabe, no posso crer que seja sua assistente - Mark prosseguiu, passando as mos pela caneca quente. -  to... estranho!
- Maggie no  estranha! - Kane protestou de imediato. - Voc a conhece e sabe disso.
Mark assentiu, lembrando-se das vezes em que vira Maggie em algumas festas da empresa para as quais ele e a esposa tinham sido convidados.
- E onde voc ficou a noite toda? - perguntou ele, de repente, como se a idia s lhe tivesse ocorrido naquele momento.
- Bem, eu passei por um pequeno clube de jazz, na rua Grant, bebi um pouco, depois fui a outro bar... 
- E andou dirigindo depois?!
Os olhos dos dois se encontraram e os dois irmos tiveram a certeza de que pensaram a mesma coisa. Kane sabia que pensavam sobre o problema que seu pai sempre tivera com a bebida. Mark jamais o conhecera, mas conhecia muito bem as histrias de suas bebedeiras homricas.
Ele e Kane nunca tinham falado a respeito, mas Mark sabia que essa era uma parte do passado de Kane que ele parecia disposto a esquecer.
-  claro que no - Kane respondeu, por fim. - Peguei um txi. Mas no tinha bebido tanto assim. Bem, mas... o que posso fazer com a histria da gravidez de Maggie?
Jill respirou fundo, aborrecida, e ambos a olharam. Ela negava de leve com a cabea ruiva e, desligando o fogo onde preparava os ovos, voltou-se e veio sentar-se tambm  mesa.
- Olhe, Kane - comeou, firme como sempre -, suas opes so: pode afastar-se e ignorar a histria por completo, afinal, ela no lhe pediu para que se envolvesse, certo? Alis, se no tivesse se interessado, provavelmente voc jamais saberia que o beb que ela carrega  seu. Sua segunda opo seria ficar afastado, mas garantir que nada faltasse a essa moa. Isso a deixaria segura, mas seria timo para o caso de vocs dois quererem ter outros relacionamentos.
Kane no pareceu muito confortvel com nenhuma das alternativas, ento Jill colocou as duas mos abertas sobre a mesa e continuou, mais firme ainda:
- E voc pode, ainda, fazer o que  certo: casar-se com ela.
- Casar-me com ela?! - Kane chegou at a arrastar a cadeira para trs, como se assim pudesse fugir de tal idia. - No posso me casar. Voc sabe muito bem que jurei nunca mais me casar!
- Ora, deixe disso - Jill desdenhou. - Tambm nunca pensou em ter um filho. E a vida nada mais  do que aquilo que acontece enquanto estamos fazendo planos diferentes. Mesmo assim, seguimos sempre em frente.
Kane negou com a cabea, teimoso, os olhos intensos. 
- No, no. Nada de casamento. No quero passar por tudo aquilo novamente. No quero ter as mesmas expectativas da outra vez, as mesmas frustraes, os mesmos problemas... Quero apenas amparar meu filho quando ele precisar. E v-lo crescer. Acho que entendem o que quero dizer, no?
Mark ergueu os ombros, parecendo alheio.
- Acho que a segunda opo que levantou seria a melhor - Kane prosseguiu, olhando para a cunhada. - Mas no sei ao certo...
Jill assentiu de leve, entendendo o problemas e tocou o brao de Kane sobre a mesa, dizendo, suave:
- Parece-me que voc quer apenas controlar a vida dessa moa e mant-la por perto por suas prprias razes.  compreensvel, embora um tanto egosta. No acha que deveria dar algo a ela tambm?
- Talvez... , talvez lhe d algum dinheiro. Muito dinheiro.
- Dinheiro?! - Jill afastou a mo, ultrajada. - Dinheiro no  nada!!
- Puxa, obrigado... - Mark interferiu, tomando aquilo pessoalmente.
- Oh, querido, no se trata disso... Voc  um marido maravilhoso, no deixa faltar nada em casa, mas... poderamos viver embaixo de uma ponte e, ainda assim, sermos uma famlia feliz porque voc representa muito mais do que a parte financeira.  claro que dinheiro torna a vida bem mais fcil, mas no  o catalisador que mantm uma famlia unida. 
Mark sorriu, terno, e tocou-lhe o rosto.
- No,  claro que no - concordou. - Na verdade,  voc quem faz isso, querida.
O olhar que trocaram deixou Kane ainda mais embaraado. Parecia-lhe que eles estavam demonstrando sua extrema felicidade de propsito diante dele. Desviou os olhos, voltando a preocupar-se com seus prprios problemas. Segundos depois, bebericou o caf, reclamando:
- Isto  to confuso para mim! Pensei que queria apenas encontrar a mulher que ia ter meu filho, tinha tudo planejado em minha cabea. Eu seria a pessoa simptica e benevolente que fica sempre no pano de fundo, garantindo uma vida maravilhosa ao beb, nunca pedindo um agradecimento ou reconhecimento algum...
- Uma linda fada-madrinha, voc quer dizer - Mark zombou.
Kane olhou, aborrecido, e concordou, mesmo a contragosto:
- . Por que no?
Jill tornou a interferir na conversa:
- Kane, querido, acha mesmo que sua Maggie  do tipo de mulher que poderia passar a vida sem se casar novamente? Porque eu acho que ela vai encontrar algum, sim, algum dia e, quando isso acontecer, eles vo partir, podero mudar-se para longe, para outro Estado, at. E o que voc faria ento?
- Isso talvez fosse a melhor coisa que pudesse acontecer - Mark opinou. - Quero dizer, se voc apenas lhe der dinheiro e no se envolver emocionalmente, ela estaria livre para ter um novo relacionamento e conseguir um pai para seu filho.
Kane olhou para ambos, ainda mais confuso. Estavam falando de seu filho!
- No - disse, em um tom mais alto do que previra. - Eu sou o pai e quero s-lo.
- Mas no quer se casar com ela - Jill rebateu. -  sua escolha. No entanto, sem uma certido de casamento, voc no ter controle algum sobre a situao.
Kane sentiu-se to mal com aquelas palavras que chegou a gemer.
- Parecia to simples antes de eu descobrir que  Maggie... - comentou, desconsolado. - Agora, tudo mudou. Nada se encaixa! So tantas dvidas, tantas questes a resolver...
Mark e Jill entreolharam-se e riram.
- Bem-vindo ao mundo dos pais e mes - Jill ironizou. - E  melhor estar bem preparado.


Uma hora depois, ele dirigia pelas ruas ainda pouco movimentadas de Chicago. A conversa com Jill e Mark no adiantara muito. Estacionou junto ao meio-fio, olhando para os pequenos montes de neve que os homens da limpeza pblica iam fazendo conforme liberavam as ruas para mais um dia. Tudo estava muito diferente do que tinha planejado antes. No bastaria aparecer uma vez por ano e levar presentes para seu filho, no bastaria abrir uma conta no nome dele... Quem estava grvida de seu filho era Maggie, a mulher que, como sua assistente, era to eficiente que administrava metade de sua vida!
Parecia que a conhecia desde sempre, e ela era-lhe muito importante. Na verdade, nunca imaginara sua vida sem ela por perto. Sempre gostara de Maggie, respeitara seu trabalho e admirara sua competncia.
E agora era como se ela, de repente, se revelasse diante de seus olhos de um modo diferente, como mulher, e no como profissional. E, por mais estranho que pudesse parecer, Kane reconhecia que havia um apelo sensual na maneira como a via agora.
A lembrana do beijo suave que lhe dera ainda estava em seus lbios e deixava-o desconfortvel. No, no podia simplesmente afastar-se dela. E como no tinha a menor inteno de se casar novamente, tinha de eliminar tambm essa opo.
O que lhe restava fazer?, indagava-se.
Precisava decidir-se. Se bem que, com certeza, j o teria feito quando chegasse ao apartamento de Maggie. Estaria preparado para lidar com a situao. E, decidido, ligou novamente o carro e dirigiu-se para l.


Maggie no dormira muito. Sua situao parecia-lhe um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo e no sabia como lidar com ela. No entanto, tinha de admitir que gostara muito de saber que seu filho era tambm de Kane, embora o que acontecera tivesse fugido, e muito, de seus planos.
Detestava ter de admitir que as rdeas estavam escapando de suas mos. Jamais imaginara que houvesse um homem de fato em todo o processo. Homens de fato sempre traziam consigo complicaes de fato.
Alm do mais, seu sonho ao buscar um banco de espermas fora o de criar um relacionamento apenas entre me e filho, nada mais... ningum mais.
Quando o interfone tocou, Maggie soube de imediato quem era, mesmo antes de atender. Mesmo assim, perguntou:
- Quem ? 
- Eu.
Com uma careta de desespero, ela contestou:
- No conheo ningum chamado "Eu".
- Maggie, deixe-me subir - Kane pediu, deixando de lado a brincadeira.
- Mas  to cedo...
- Ou tarde - ele acrescentou, na voz rouca de quem no dormira muito. - Depende da perspectiva. 
Maggie respirou fundo. Ele no iria desistir.
- Est bem - concordou, apertando o boto que abria a fechadura da porta de entrada do edifcio. 
Quando passou pelo espelho da sala, fez uma careta ao ver-se. Mas era assim que acordava aos sbados pela manh: cabelos presos em uma trana, cala larga, confortvel, blusa idem.
Pacientemente, comeou a preparar a cafeteira enquanto esperava que ele subisse, e acabou por derrubar um pouco de p sobre o balco da pia.
Estava tensa.
Parte de seu corao aceitava o envolvimento de Kane. Afinal, estava se sentindo muito sozinha e, quanto mais aquele beb se tornava uma realidade, mais alegre tinha ficado. Mas tudo estava caminhando de forma diferente agora. No seria bom ter algum que compartilhasse aquela alegria? No sabia.
No podia achar que a vida fosse um conto de fadas. Precisava ser forte e continuar querendo que a aventura que comeara fosse apenas sua e de seu filho, de mais ningum.
No processo de limpar a sujeira que fizera, acabou por derrubar um copo que, por ser de plstico, no quebrou, mas foi suficiente para deix-la ainda mais nervosa e provocar-lhe um grito e uma palavra pouco usada e pouco decorosa.
No mesmo instante, Kane batia  sua porta e ela tinha um sobresalto. Imaginou se ele a ouvira praguejar e foi abrir.
- O que houve? - foi a primeira coisa que ele disse, deixando-a embaraada.
- Nada... Entre. - Ao olh-lo, ela percebeu que havia alguma coisa diferente, mas demorou a descobrir o que era.
Kane pareceu-lhe feliz. Realmente feliz. E uma sensao de medo a tomou.
- Bom dia! - saudou ele, alegremente, baixando os olhos de imediato para seu ventre. E prosseguiu, mais calmo: - Sabe, no posso evitar...  meu filho... H um beb a dentro e ele  meu...
Maggie no sorriu, mas Kane no notou insatisfao na expresso do rosto dela. Entrou, deixando o sobre-tudo sobre o sof e voltando-se para olh-la, como se isso j no fosse suficiente a cada instante.
Maggie parecia adivinhar que ele no fora para casa. Notava a barba por fazer, o terno um tanto amarrotado, a falta da gravata e a camisa aberta no colarinho.
Os cabelos estavam despenteados e algumas mechas avanavam-lhe sobre a testa alta. Era estranho, mas Maggie jamais o vira to atraente...
-  um milagre, sabia? - Kane prosseguiu, em um tom de voz to reverente que a surpreendeu.
E o beb pareceu t-lo ouvido, porque escolheu esse exato momento para mover-se, agitado. Ela levou as mos ao ventre, em uma reao instintiva. Por interminveis segundos, seus olhares se cruzaram enquanto o corao de Maggie batia mais forte, em um ritmo que lhe tirava a respirao normal.
Voltou-se, seguindo para a cozinha, e oferecendo: 
- Quer tomar caf?
- Claro! - Ele se acomodou em um dos banquinhos ao lado da mesa pequena e apoiou os cotovelos sobre ela, dizendo: - Enquanto isso, acho que quer saber como essa confuso toda aconteceu, no?
Ela assentiu com um gesto. Era, de fato, algo em que perdera algumas horas, durante a noite, tentando deduzir.
Kane, ento, passou a narrar, desde o incio, a histria de como acompanhara seu amigo Bill  clnica, quando este tentava lidar com seu problema de sade. E chegou ao ponto em que explicou por que deixara sua amostra de esperma, para incentivar Bill a fazer o mesmo.
- Sabe, eu no entendo - Maggie comentou, desligando a cafeteira. - Sempre o vi como um homem de negcios, com a mente fria e o corao no muito longe disso. Por que agiu assim, ento?
Kane ergueu os ombros e tentou uma explicao: 
- Talvez seja como quando minha cunhada tenta fazer seu moleque comer ervilhas... Ela lhe diz que elas parecem estar to gostosas! Ento come um pouco e sorri, fingindo estar provando o nctar dos deuses... E, assim, Kenny as come tambm...
Se a cada vez que ele fosse explicar alguma coisa para Maggie ela sorrisse daquele jeito, ele no se importaria de ter de inventar histrias o resto de sua vida, apenas para contemplar aquele sorriso.
Com isso em mente, continuou:
- Sabe, Bill estava muito tenso, apavorado mesmo, com tudo que lhe estava acontecia. Suas decises pareciam lentas... No queria deixar seu esperma na clnica. E, quando um funcionrio sugeriu que eu fizesse o mesmo, apenas para anim-lo, eu concordei. Queria apenas ajud-lo. Cheguei a pensar em ligar, depois, e pedir que destrussem minha amostra, mas acho que acabei esquecendo. E ento... Bem, ento foi tarde demais...
Maggie ouvia-o, incrdula. Kane completou, parecendo um tanto sem graa:
- Quando me avisaram que minha amostra tinha sido utilizada por engano e que a mulher em questo trabalhava em minha empresa, fiquei chocado. E depois quase enlouqueci tentando descobrir de quem se tratava. E quando descobri que era voc...
Ela desviou o olhar do dele, voltando a dar ateno ao caf. Instantes depois, ele perguntou:
- Por que fez inseminao artificial?
-Porque eu queria muito ter um filho. E no queria ter de me casar novamente para isso.
Maggie entregou a caneca de caf a Kane e bebericou um pouco da sua. Sabia que ele deveria estar intrigado com sua resposta, que provavelmente no aprovava seu gesto. Mas Kane no disse nada e um silncio pesado caiu entre ambos por alguns minutos.
- O que sua famlia pensa a respeito? - indagou ele, por fim.
- No tenho famlia. Meus pais j faleceram. Tenho apenas meu beb agora.
Kane sorriu de leve.
- Seu beb... - repetiu. - Bem, agora tem a mim tambm.
Maggie no respondeu. O que poderia dizer? Que no o queria em sua pequena famlia? Que ele era apenas um acidente? No, seria frio demais. Mas era a verdade.
- Muito bem, minha proposta  a seguinte - disse ele, de repente, demonstrando o homem de negcios que era. - Na segunda-feira vamos at a clnica para saber se nossas especulaes esto corretas, embora saibamos com antecedncia que esto, certo? Voc vai deixar seu emprego na firma e mudar-se para um belo apartamento que est vago em meu prdio, no andar abaixo do meu.
 medida que Kane ia descrevendo seu plano, os olhos de Maggie iam se abrindo cada vez mais, e a estupefao j se fazia em suas ris.
Sem se dar conta da reao dela, Kane continuou: 
- Vou contratar uma companhia de mudanas para levar tudo que  seu. No quero que fique fazendo esforo algum. Tambm acho que seria melhor eu contratar uma governanta para cuidar de voc. De preferncia algum que tenha experincia com crianas para que possa continuar com voc assim que o beb nascer. Enquanto isso, vamos comear a procurar-lhe uma casa nas vizinhanas.
Maggie olhava-o, muito sria. Estava a ponto de mudar-se para um lugar muito inferior, para poder economizar, e Kane abria um futuro paradisaco  sua frente. E ele parecia to certo do que dizia...
Estava atnita. Quando ele parou e sorriu, teve de piscar para acordar do enlevo que ele criara.
- Ns dois queremos o que  melhor para o beb - Kane acrescentou. - Esse ser meu objetivo maior daqui em diante.
Maggie compreendia. A criana era o ponto principal de tudo. E estava feliz por ele pensar assim.
- Imagino que v precisar de algumas roupas de gestante - ele prosseguiu, sem dar-lhe tempo para falar. - Tenho um amigo que  obstetra e vou marcar uma consulta para voc hoje mesmo.
Kane tinha tudo planejado. Seria fcil ficar com ele e deix-lo fazer todas as escolhas, pagar as contas, tomar controle da situao. Os problemas, as preocupaes, desapareceriam... Maggie podia relaxar e deix-lo agir.
De repente, a lembrana de Tom apareceu em sua mente, com os olhos frios, a boca dura, em uma expresso de desaprovao. Maggie estremeceu e tentou afastar tal idia.
Ergueu os olhos para o rosto de Kane, notando o quanto ele era diferente de seu falecido marido. Seu rosto era belo e sua expresso, gentil. E ele queria o que era melhor para ela e para o beb.
Kane retirou o talo de cheques do bolso, e comeou a preench-lo.
- Olhe, vou dar-lhe o suficiente para cobrir as despesas que venha a ter nos prximos dias. - E entregou-lhe a folha de cheque, com um sorriso nos lbios. - Sabe, Maggie, isto vai ser uma grande aventura!
Ela estava com a garganta seca. Pegou o cheque e leu-o. Era mais dinheiro do que ganhava em um ms. Sentia-se trmula e esperava que a ansiedade que sentia no aparecesse em sua voz. Sabia que devia manter a postura firme que sempre tivera no trabalho, ou acabaria por derreter diante de Kane. E no queria que o relacionamento que tinha com ele tomasse outro rumo.
Olhou-o firmemente nos olhos e negou com um gesto de cabea, rasgando o cheque em seguida.
- Sinto muito, mas no posso aceitar - murmurou. 
Kane mostrou-se surpreso. Olhava para os pedacinhos de papel entre os dedos dela e, sem entender, indagou, firme:
- Maggie, o que est acontecendo?
- No lhe ocorreu ainda que o processo j comeou h algum tempo e que voc apareceu um tanto tarde demais?
A expresso no rosto dele se endurecia.
- No sei do que est falando  observou.
- Kane, estou grvida h cinco meses. Ento, voc aparece e espera poder tomar controle de tudo. Por que acha que pode mudar todas as regras assim, de repente?
Kane estava pasmo.
- No estou tentando mudar nada. Quero apenas ajudar voc.
- No. Est tentando me controlar. 
- O qu?!
Maggie estava arrependida por ser to dura, mas sabia que devia manter sua posio, seria melhor assim.
- Este beb  meu. - Olhou-o como se o desafiasse a contradiz-la e continuou: - Ele pode tambm ser seu, de certa forma e, nesse caso, eu no me oporia em t-lo como uma influncia masculina para meu filho, mas serei eu quem tomar as decises finais em tudo na vida dele.
Ela se endurecia, esperando o confronto que viria, com certeza. Tom sempre fizera brigas incrveis cada vez que ela tentava manter sua posio a respeito de qualquer assunto. Mas Maggie detestava brigar, geralmente tentava outra soluo. E, assim, Tom sempre ditara as regras em seu relacionamento. No queria, de forma alguma, que isso voltasse a acontecer novamente e teria de se impor desde o princpio.
No entanto, olhando para Kane, no via a raiva que seria de se esperar. Havia algo diferente, que no entendia. E, incrdula, viu-o tocar-lhe a mo e pux-la muito de leve para si.
- Maggie, isso tem algo a ver com a morte de seu marido? - Havia considerao e ternura no olhar que ele lhe lanava.
- Meu marido?
- Sim... Voc  jovem e perdeu um marido que devia amar muito... Imagino que ainda no tenha superado a dor. Imagina que, se me deixar fazer parte de sua vida, isso poderia, de alguma forma, ser uma traio para com ele?
Maggie sentiu vontade de rir. Se ele soubesse... 
- No, no se trata disso - disse apenas.
Kane ergueu-lhe a mo at os lbios e beijou-a suavemente.
- Disse que no havia outro homem em sua vida...  insinuou.
Ele estava to prximo, to carinhoso! Seria to fcil abra-lo, deix-lo proteg-la, fazer planos para o beb, para sua vida futura!
-  verdade - murmurou, lutando para manter os pensamentos claros.
Kane sorriu.
- Ento, serei eu esse homem - ofereceu. - Voc e o beb precisam de um, no acha? E... acho que no pode me desviar de meu intento.
- Eu no quero desvi-lo. No  isso... - Maggie cerrou os olhos, incapaz de explicar o que se passava em seu corao. E, quando sentiu que ele soltava sua mo, olhou-o, vendo o que chamara sua ateno.
- Roupinhas de beb? - Kane se afastara at uma caixa que ela deixara aberta na sala. - Voc j comprou algumas roupinhas para ele? - Ele ergueu um casaquinho de l azul e sorriu. - Puxa; so to pequenas!  Estava encantado.  Voc j sabe o sexo do beb?
Mesmo sem querer, Maggie sorriu. Era bom ter algum com quem partilhar sua felicidade.
- Sim.  um menino.
- Um menino! - Kane sentia-se to intensamente feliz que no sabia nem como se expressar. Lembrava de si mesmo e de seu pai, e de como sofrera quando o perdera. Sua me passara a trabalhar, ento, deixando-o com babs. E ele esperara por um pai que nunca mais viera...
Sua me viera, eventualmente, a se casar outra vez, mas, embora seu padrasto fosse um homem bom, Kane sempre o vira apenas como um visitante. Esperara muito para ter seu prprio pai de volta, mas isso jamais acontecera. E, s vezes, era estranho, mas sentia que ainda continuava  espera.
Voltou-se para ver Maggie. Gostava do modo como os cabelos dela se soltavam da trana, do arredondado de seus seios sob a blusa larga, de seus ps, agasalhados pelas meias coloridas... Queria poder abra-la e apert-la contra si por muito tempo...
Mas no tinham essa intimidade. E ela acharia estranho se ele resolvesse acarinh-la. Respirou fundo, ento, dizendo apenas:
- Acho que sei o que vamos ter que fazer. 
- Mesmo? E o que ?
- Vamos ter que nos casar. Sei que isso no faz parte de seus planos, mas a vida sempre estraga nossos planos, no  mesmo? - Lembrava-se das palavras de Jill. - , vamos nos casar. No h outro jeito. 
Podia no haver, mas ele estava muito feliz.

CAPTULO V

Na segunda-feira, pela manh, tudo ficou confirmado sem sombra de dvida. Kane e Maggie voltaram da clnica e subiram no elevador calados, como tinham vindo o caminho todo at ali. Entraram no escritrio dele e sentaram-se  mesa de sua sala, olhando-se, em silncio.
- Bem... - Kane comeou, mas sem saber como prosseguir.
- Bem... - Maggie repetiu, e calou-se logo em seguida. 
Ele estendeu o brao e pegou uma das mos delicadas, segurando-a com fora.
- Sabe o que isso significa? - indagou. - No importa o que faamos ou digamos, no importa nem o que possamos querer, nossos destinos esto ligados para sempre.
Ela o encarou e engoliu em seco. Para sempre... Era tanto tempo!
- Devemos nos casar - ele continuou, em voz suave. 
Maggie, porm, retirou a mo de repente, protestando: 
-  melhor parar com essa conversa de casamento! Ele se recostou  cadeira. No tinha inteno de desistir da idia de casar-se com Maggie. Tinha certeza de que seria apenas uma questo de tempo para convenc-la. Afinal, convencera a si mesmo, o que j era de espantar...
No entanto, o argumento que o levara a aceitar a idia e que continuava ecoando em sua mente poderia no ser o mais eficaz para com Maggie: sem uma certido de casamento, no teria controle algum sobre a situao, como sua cunhada bem lembrara. Portanto, tentou ainda uma vez:
- Maggie, trata-se de nosso beb. E tudo vai correr muito melhor se estivermos casados, morando na mesma casa... S assim poderemos cuidar bem do nosso filho.
- Exatamente.  nosso filho e no precisamos de um documento para que isso se torne verdadeiro. 
Irritada, ela caminhou at um armrio prximo e guardou nele uma pasta que encontrara fora de lugar. Voltou-se, procurando algo mais para fazer, mas tudo parecia estar em ordem. Sem opes, tornou a olhar para Kane, que observava seus mnimos movimentos. 
- No podemos continuar como estvamos antes? - perguntou. - Estou feliz em trabalhar para voc. Tudo vai bem no escritrio... J somos uma... equipe, de certa forma. Sinto-me segura com o que fao aqui. No podemos continuar assim?
Aquele pedido era suave e doce, e o brilho dos olhos azuis de Maggie conseguiria qualquer coisa de Kane, embora ela ainda no o soubesse. Mas aquele no era um momento em que pudesse ser levado pelo encanto que aqueles olhos lhe causavam.
- No, no podemos, Maggie. Voc vai ter meu filho e tudo mudou.
Maggie deu meia-volta, inconformada, e passou a dar passos vagos pela sala. Sentia-se presa em uma armadilha, mas no estava disposta a entregar-se... Pelo menos, ainda no.
- Podemos dar um jeito - teimou. - Posso trabalhar at o fim da gravidez e, quando o beb nascer, poderei traz-lo para o escritrio comigo. A creche j dever estar pronta e...
- A creche... - ele repetiu, aborrecido. - No pode contar com isso.
- Por que no? Achei que...
Kane levantou-se e, com um aceno de mo, interrompeu-a.
- Seria muita ingenuidade, no acha? - argumentou. - Nada pode ser como antes, no v? Nosso filho mudou tudo!
Maggie mordeu o lbio inferior. Sabia que a criana mudaria tudo, sim, mas seu bom senso no lhe dissera isso quando quisera desesperadamente engravidar. E agora no conseguiria mostrar a Kane o quanto seu filho era importante em sua vida. Nem mesmo podia dizer a ele que no queria se casar porque queria o beb apenas para si. J era tarde para isso.
Kane falara em ingenuidade e tinha razo. Fora ingnua em tomar decises impulsivas, ignorando suas conseqncias. Estaria repetindo essa atitude ao recusar-se a aceitar o casamento?
- Tudo mudou... E a tendncia  mudar muito mais, voc sabe - Kane insistiu, aproximando-se.
- Eu sei... - Maggie interrompeu-se, para no dizer tudo o que tinha vontade, e que poderia ofend-lo. 
- Ento... O que quer? Como acha que podemos resolver o caso?
Kane estava muito prximo e isso a deixava um tanto fora de controle. E agora parecia sentir com mais intensidade o perfume da loo que ele usava e que a deixava ainda mais atrada...
-Acho que preciso de tempo para pensar -Maggie murmurou.
- Bem, no temos tanto tempo assim, voc sabe. - E, de repente, ele a tomou nos braos. - Case-se comigo, Maggie!
- No... - Ela se sentia presa, mas, estranhamente, isso no a incomodava. Pensava desesperadamente em um motivo coerente para dar a Kane, mas seus pensamentos estavam embaralhados. At que conseguiu dizer: - Ns no... nos amamos...
Kane soltou-a devagar.
-  verdade - concordou, quase sem voz. - E eu nunca disse que nos amvamos.
Maggie sentia que, de certa forma, ele se ofendera. E no entendia por qu.
- No nos amamos - Kane repetiu. - Mas gostamos muito um do outro. No?
- Acho que sim...
-E temos os mesmos objetivos. Queremos esse filho e queremos o melhor para ele.
- Sim.
Ele se recostou  mesa e cruzou os braos sobre o peito forte.
- Sabe, Maggie, casei-me por amor da primeira vez. Pelo menos, eu achava que era amor. E no deu muito certo.
- Sinto muito.
- A mulher que imaginei poderia levar-me ao paraso acabou por transformar minha vida em um inferno. No foi, de fato, to dramtico quanto pode parecer, mas o amor se foi assim que nos conhecemos melhor e nossas personalidades afloraram. Ento, no precisa me dizer que o amor  importante.  como a cobertura de um bolo, eu acho. Pode-se passar muito bem sem ela, desde que o bolo seja bom.
Maggie teve de rir da comparao.
- E voc acha que nosso bolo  bom o suficiente? - perguntou, sorrindo.
O brilho nos olhos de Kane foi uma boa resposta. Sem contar que a maneira como a encarou conseguiu provocar aquela espcie de corrente eltrica entre ambos, que a abalou completamente.
- E voc? - indagou Kane, vendo que Maggie voltava a dar passos lentos pelo escritrio. - Casou-se por amor?
-  claro que sim!
- E tudo correu como voc esperava? 
Maggie parou de andar e olhou-o.
- Isso no vem ao caso.
-Vem, sim... Maggie, o amor  uma emoo voltil. Comea sem que percebamos e quando nos damos conta, ele j acabou.
Ela no gostava de tal colocao. No acreditava no que ele dizia, apesar de sua prpria experincia. Eram palavras muito cnicas sobre o amor. Se no se pudesse acreditar na redeno do amor, em que mais acreditar, ento?
E Kane continuava:
- Trabalhamos juntos h anos. Sabemos que nos damos muito bem. - Segurou-a pelos ombros, fazendo-a olh-lo. - Podemos fazer dar certo, Maggie! Precisamos apenas querer que d certo!
Mas ela precisava de muito mais... Precisava de garantias. Precisava no se sentir to vulnervel quando Kane estava assim, to prximo...
O telefone tocou, assustando-a, fazendo-a lembrar-se de que estavam em um escritrio comercial, em um dia de trabalho normal.
Kane atendeu e ela aproveitou a oportunidade para voltar-se para a porta e seguir at sua escrivaninha. Mas ele a chamou antes que sasse:
- Maggie, espere um minuto, sim? Temos que decidir sobre nossos planos. Quanto tempo quer?
Ela o encarou, sem muita certeza do que responder. 
- Por que temos que... - comeou, mas ele logo a interrompeu:
- Porque as pessoas vo comear a perceber seu estado... E, seja o que for que decidirmos, no acha que seria melhor faz-lo antes que comecem a falar? 
Mais uma vez, Kane estava certo.
- Na sexta-feira - Maggie murmurou. - Vou lhe dar uma resposta na sexta-feira.
- Est certo.


Maggie tinha uma consulta marcada para a quinta-feira. Chegou a pensar em convidar Kane para acompanh-la, mas, no ltimo instante, decidiu o contrrio.
- No acha que eu deveria tomar parte nessas coisas? - ele protestou quando lhe contou, pouco antes de sair para  consulta.
- No. Para qu? Seria sua presso que seria verificada? Sua dieta a ser prescrita? Seus tornozelos a serem examinados para ver se esto inchados?
Kane nada disse, mas sua expresso deixou-a arrependida do que dissera.
- Eu o convidarei a ir comigo assim que tivermos decidido tudo, est bem? - Tentou consertar. - Poder falar com o mdico, ento. Mas ainda no.
De repente, Kane parecia tenso, como se tivesse pressa de que ela deixasse o escritrio:
- No acha que est atrasada? Pode ficar presa no trnsito...
- No se preocupe. No  to longe assim. Hannah e Kate vo atender os telefonemas para voc. - Maggie ajeitou as coisas sobre sua mesa, vestiu o casaco, pegou a bolsa, e voltou-se para ver que Kane ainda a olhava. 
- O que houve?  indagou.
- Nada... Por que haveria alguma coisa? Pode ir. E telefone, se precisar de alguma coisa.
- Est bem.
Kane lhe parecia muito estranho. Mas no queria perder mais tempo pensando no que poderia estar acontecendo com ele. J no elevador, ela fechou os olhos e sorriu, murmurando:
- Kane, Kane, o que est aprontando?
Era impressionante como seu relacionamento com ele mudara em to pouco tempo. Sempre tivera certeza de que adorava trabalhar para ele, gostava demais do ambiente do escritrio, do peso da responsabilidade... Havia orgulho e dignidade no que fazia e na maneira como ela e Kane se respeitavam. Agora, porm, havia algo mais... Percebia uma ternura que jamais pensara poder haver ali.
E, ao caminhar para o carro, no estacionamento, um pensamento novo nasceu em sua mente. No havia por que querer levar sua gravidez adiante absolutamente sozinha. A famlia bsica era a base da sociedade simplesmente porque funcionava... Uma me, um pai e uma criana... No havia por que optar por um estilo de vida mais difcil, quando podia contar com o apoio de um homem maravilhoso como Kane.
Sabia que teria sempre do seu lado um homem de verdade, o pai do seu filho, que queria ajud-la, e que estaria sempre por perto, no importava o que fizesse para recha-lo.
Mas havia ainda um grande medo em sua alma. Tudo parecia lindo e promissor, mas... E se Kane mudasse como Tom havia mudado? E quanto mais pensava, mais percebia que houvera sinais de que Tom mudaria de namorado atencioso e dedicado para marido manipulador e frio. Sinais que, naquela poca, Maggie preferira ignorar. 
Agora, no via esses mesmos sinais em Kane. Mas ser que no havia outros? Quem lhe garantia que poderia estar ignorando sinais novamente... Tinha receio de ficar cega para aquilo que no queria ver. Mas como saber ao certo? Nem tudo na vida vinha acompanhado com manual de instrues.


Kane esperou por cinco minutos, tamborilando os dedos sobre a escrivaninha. Quando calculou que ela j tivesse chegado ao carro, ps-se em ao. A primeira coisa que fez foi chamar Sissi.
- Muito bem, ela j foi - avisou. - Pode trazer tudo para cima.
Ao desligar, passou os olhos pela sala e sorriu. Nunca antes prestara ateno ao Dia dos Namorados. Enfiou as mos sob sua mesa e retirou de l um enorme pingim de pelcia que segurava um corao onde se lia: Seja minha!. Levou-o  mesa de Maggie e colocou-o sentado na cadeira, olhando-o de longe, satisfeito com o efeito.
- Bonitinho - comentou para si mesmo. - E as mulheres adoram coisas bonitinhas.
Seguiu, ento, para o elevador, cujas portas se abriam para dar passagem a Sissi e seu assistente Brandon Levy. Ela trazia um carrinho cheio de enfeites de coraes e flores, enquanto o rapaz, que trazia tambm algum aparato, no parecia muito  vontade com o servio do dia.
Kane procurou parecer o mais sbrio e firme possvel, j que deveriam trabalhar com eficincia e rapidez na decorao da sala.
- Muito bem, Sissi - ordenou. - Aja rpido. As flores vo ficar nesta mesa, mas quero que as divida para encher os quatro vasos. Quero os bales presos  mesa dela, os doces nos pratinhos em formato de corao.
Kane ergueu a cabea e falou:
- Brandon, vamos l, a faixa vai ficar logo na entrada do escritrio. E os coraes de papel vo ficar espalhados por toda parte.
Sissi comeou a trabalhar com presteza. Sua curiosidade, porm, era mais do que bvia. Quando terminou de arrumar tudo que Kane lhe pedira, no agentou mais:
- Esta pequena comemorao tem algum motivo especial?
O olhar de Kane, porm, era frio. 
- No sei do que est falando - respondeu, colocando mais um balo sobre a mesa de Maggie. -  Dia dos Namorados, e neste pas todo mundo faz este tipo de decorao, no?
- Deste jeito, no. - Sissi sorriu, ajeitando as flores. - Deve ser uma nova fase em sua vida que est se iniciando, certo? - E sorriu abertamente desta vez. - Apaixonar-se... Bem, o que aconteceu ao velho sr. Cinismo, hein?
- Ele ainda est aqui, Sissi. Mas esta decorao  para agradar Maggie. Ela  uma excelente assistente e merece algo de especial. E voc no deve interpretar nada alm disso, certo?
- Quem? Eu? Sou um tmulo, chefe! - Com seu bom humor costumeiro, ela bateu continncia para Kane.
- E vai continuar assim se no quiser sofrer as conseqncias decorrentes de uma lngua comprida. 
- Ora... Ameaas?! O caso deve ser srio, mesmo! - Sissi exclamou.
Kane encarou-a, franzindo as sobrancelhas.
- J esteve na Sibria? - ameaou, em uma brincadeira. - Tenho bons conhecidos por l. Posso design-la para fazer seu servio por l, sabia?
- Pois pode esquecer se acha que vai manter esta histria em segredo, patrozinho. Aposto que todo mundo no prdio j est sabendo... -A expresso de Sissi era hilria.
- No  possvel. Nem terminamos a decorao ainda...
- No sei, no... Essas coisas parecem ter vida prpria...
Ele a encarou, desconfiado, mas Sissi apenas sorriu enigmaticamente e pegou o carrinho, chamando seu assistente para o elevador. E, em segundos, Kane estava sozinho no escritrio lindamente decorado.
Ele olhou ao redor, sentindo-se muito bem. Nunca fizera algo assim e a sensao era tima. Pensou, ento, no ltimo e mais importante detalhe: foi at sua mesa e retirou o envelope da gaveta de cima. Abriu-o e puxou o carto de dentro, lendo-o mais uma vez. No fora fcil encontrar um que falasse de sentimentos e, ainda assim, no tivesse a palavra "amor".
Havia apenas uma breve mensagem: O Dia dos Namorados  para os coraes cheios de sentimentos. 
Logo abaixo, escreveu: Nossos assustados coraes, cheios de sentimentos, foram tomados por um beb. Vamos viver a vida juntos. Parece-me a coisa certa a fazer.

Kane colocou o envelope no colo do pingim e voltou a seu escritrio, para esperar. No fazia idia de quanto demorava uma consulta como a que Maggie fora fazer, mas no estava disposto a trabalhar at que ela voltasse. E ficou ali, esperando...
Esperou por bastante tempo. Depois decidiu adiantar alguns papis, mas consultava o relgio a cada cinco minutos. O tempo passava e o elevador parecia estar com algum defeito porque muitas pessoas que no eram daquele andar acabavam chegando ali, olhando para a decorao e descendo novamente. De repente, Kane caiu em si e constatou que a decorao que ele fizera para Maggie  que despertava tanta curiosidade.
Sissi devia ter falado demais, concluiu, irritado. 
Sentiu-se um idiota. Comeou a pensar na maneira como vinha agindo desde que soubera sobre a gravidez de Maggie. No entendia suas prprias aes, mas chegara a pedir a ela que se casasse com ele!! Lembrava-se do juramento solene que fizera, ao separar-se de Crystal, de que jamais tornaria a se casar.
Seu casamento com Crystal fora um desastre. Linda e refinada, ela lhe parecera a mulher mais bela do mundo, mas revelara-se avarenta, ambiciosa e desonesta.
Sabia que havia bons casamentos pelo mundo. Tinha como exemplo o de Mark e Jill, ou o de sua me com o pai de Mark. Mas, depois de muito refletir a respeito, chegara  concluso que o problema estava nele mesmo. Todos pareciam desapont-lo no final. Ningum ficava ao seu lado como desejava. Era como se continuasse sendo aquele garotinho insatisfeito pela perda do pai, esperando por sua volta dia aps dia, e sempre se desapontando quando ele no vinha...
E agora estava prestes a se casar novamente. Que Deus o ajudasse! Sabia que uma certido de casamento no era garantia para no ser abandonado, mas sabia que haveria um filho, e filhos no costumam abandonar os pais. Pelo menos, no at completarem dezoito anos...


Maggie percebeu que havia algo de diferente assim que estacionou na garagem. 0 guarda, que sempre lhe sorria com respeito e distanciamento, agora abria um largo sorriso, muito pessoal.
- Ol, sra. Steward - cumprimentou ele. - Voltou logo!
Diante de tanta solicitude, Maggie comeou a preocupar-se. - Por qu? Algo aconteceu?
- No, no!
Trudy, a recepcionista, ergueu a cabea assim que a percebeu e tambm sorriu.
- Boa tarde, Maggie! - saudou, com exagero. 
- Ol, Trudy... - respondeu, meio sem graa. 
Duas mulheres que no conhecia estavam atrs dela no elevador com expresso maliciosa. Maggie sorriu-lhes, depois voltou-se, em silncio. Mas sentia os cabelos em sua nuca eriados, sabendo, por instinto, que elas a olhavam, que estavam fazendo algum comentrio a seu respeito. O que seria?
Era como se soubesse que estavam falando dela antes de entrar no elevador e que continuariam assim que sassem. E, quando o fizeram, voltaram-se para v-Ia, sorrindo.
Lauren Mitchell passava, naquele momento, e viu-a. 
- Oi, Maggie! - saudou. - Feliz Dia dos Namorados! 
- Para voc tambm!
As portas do elevador se fecharam e ela teve a ntida impresso de que Lauren ficara rindo... Era Dia dos Namorados e Maggie nem se lembrara. Vira algumas lojas decoradas, algumas salas do prdio tambm, mas no dera ateno maior ao fato.
Talvez tivesse ignorado tudo exatamente porque sabia que no receberia nada, nem um carto de algum amigo. 
No entanto, o fato de ser Dia dos Namorados nada tinha a ver com o comportamento estranho das pessoas na firma. No entendia o que estava acontecendo.
O elevador parou um andar abaixo do seu, e teve de apertar o boto para as portas se fecharem novamente, mas chegou a ouvir comentrios do tipo:  ela!
Viu que as pessoas a observavam, e teve tempo de visualizar Sissi, que estava entre elas e gesticulava enfaticamente, demonstrando um ar culpado e parecendo preocupada.
- No fui eu, Maggie, eu juro! - ouviu-a gritar. 
Sem entender absolutamente nada, ela seguiu at seu andar e, quando as portas se abriram mais uma vez, prendeu a respirao.
Os bales, os coraes, as flores e a faixa dizendo Feliz Dia dos Namorados!, tudo era novidade e, apesar de muito bonito, deixou-a perplexa.
- Oh, no...  murmurou.
Por que Kane no colocara um anncio no jornal?, perguntou a si mesma, irnica. Ou talvez uma placa em non, diante do prdio, contando a todos o que estava acontecendo!
- Kane! - chamou e logo ele apareceu, por entre os inmeros bales brancos e vermelhos. - O que  isto?!
- Ol, querida. - Ele lhe oferecia uma caixa de veludo vermelho, cheia de bombons. - Feliz Dia dos Namorados!
O que poderia dizer a ele? Havia uma expresso alegre e apreensiva naqueles olhos to intensos. Entendia que Kane queria apenas agrad-la, tentava deix-la feliz...
Ainda sem acreditar que Kane havia feito tudo aquilo para agrad-la, sentiu os olhos cheios de lgrimas. 
-Oh... Eu adorei! Obrigada, Kane. No existe sala mais bonita do que a minha!
Ningum jamais fizera tal coisa para ela. Deixou-se seduzir, segurando o pingim e apertando-o em um abrao carinhoso.
Depois de alguns instantes, olhou-o com carinho e comentou:
- No sabia que gostava de coisas assim.
- Mas gosto. - Kane deixou a caixa de bombons de lado e tomou-a nos braos.
- Vamos jantar juntos esta noite, est bem? J fiz as reservas no Le Jardin.
Maggie apenas sorriu. No queria negar-se a ir. 
-E agora precisamos nos beijar - Kane completou, sorrindo.
-Precisamos? Por qu?-ela perguntou, maliciosa. 
- Porque assim manda a tradio. Como no Natal, quando um casal pra embaixo do ramo de visgo. - A voz dele denunciava uma felicidade que era incomum em Kane.
-Nunca ouvi falar que essa tradio estivesse tambm no Dia dos Namorados...
- Mas est!  nova! Acabou de comear!
- Kane, eu no sei se... - Maggie tentou protestar. 
- Mas eu sei... Deixe que eu lhe mostre como  - ele brincou, para tentar descontra-la.
Devia ser apenas um beijo doce, sem maiores pretenses. Mas algo aconteceu, que nenhum dos dois pde prever. Quando seus lbios se tocaram, a paixo apareceu de repente, forte, unindo-os de tal maneira que o beijo tornou-se ardente, febril.
Os segundos se passaram, parecendo eternos, e quando Maggie deu-se conta do que ocorria, afastou-se depressa.
- Puxa,  melhor no fazermos isso outra vez... - foi o comentrio de Kane, que deixou-a desconcertada. 
Ficaram ambos parados, olhando-se, sem saber o que mais dizer, ou o que pensar, at que Maggie lembrou-se de algo. Pegou sua bolsa e murmurou:
- Tambm tenho um presente para voc. - E entregou a ele a ultra-sonografia que fizera naquela tarde. -  seu filho.
Era a primeira vez que ela dizia isso, que aceitava o fato por completo.
Kane pegou o envelope e abriu-o, e seu olhar se enterneceu de imediato ao ver as manchas no acetato. Como ela poderia no amar aquela reao? Como poderia ficar indiferente a tanta demonstrao de carinho?
... estava, realmente, perdida.




















CAPTULO VI

O jantar no podia ter sido mais adorvel. Comida excelente, canes suaves de Edith Piaf tocadas ao fundo, criando um clima de extremo romantismo, lembrando Paris nos anos quarenta. E foi exatamente esse o comentrio que Maggie fez, aps a sobremesa.
- Talvez, naquela poca, tudo parecesse ter um encanto especial porque as pessoas sabiam contra o que estavam lutando e no que acreditavam - Kane comentou. - No havia muito do que se arrepender.
- Talvez no fossem to diferentes do que somos hoje em dia - ela observou.
- Talvez. O fato  que todos procuramos mais... segurana em nossas vidas, no acha?
-  verdade.
Maggie prestava ateno ao modo refinado com que Kane bebia seus ltimos goles de vinho. Ele estava em seu elemento, fazia parte daquela vida. Ela, ao contrrio, sentia-se um ser  parte naquela atmosfera de luxo e sofisticao.
Gostaria muito de poder acreditar que a vida seria bem melhor ao lado dele, pois sabia o quanto Kane era bom. Mas havia certos impedimentos e eles vinham muito mais dela mesma do que da realidade que vivia.
Era uma pena que ele no a amasse, pensou, em certo momento. Tudo estava mudado agora entre eles, mas apenas por causa da criana que esperava.
- Gostaria de danar? - Kane perguntou baixinho, tirando-a de seus pensamentos.
- Danar? - Maggie sentia que ele a levava devagar at a pista de dana e no opunha resistncia. A msica tocada agora fazia-a pensar naqueles cafs tipicamente franceses, nos quais o som dos acordees embevecia qualquer alma romntica.
Nos braos de Kane, seguindo seus passos na melodia, ela mantinha a cabea baixa, com receio de que ele percebesse suas emoes, que afloravam com intensidade. Cerrou os olhos, deixando-se envolver pela atmosfera suave que a rodeava. Podia tentar esquecer sua real situao, imaginar que fosse possvel Kane vir a apaixonar-se por ela... Se fosse possvel...
Quando a msica terminou, eles continuaram parados, mas Kane ainda a envolvia nos braos com muito carinho. Parecia at que ele no queria que Maggie se afastasse dele.
Seus olhares se encontraram e Maggie percebeu, no dele, uma intensidade que a deixou fraca, atrada. E, de repente, percebeu o que se passava: ele a queria! A dana, a pouca intimidade que tinham partilhado naqueles minutos, tinham trazido  tona um desejo oculto, que jamais ocorrera a nenhum dos dois.
Kane sorriu e puxou-a consigo de volta  mesa. Ainda perplexa com o que acontecera, Maggie tentava controlar-se e ter certeza de que no vivera um sonho.
Sentaram-se e conversaram por mais algum tempo, sobre assuntos triviais. A msica de Edith Piaf tornou a invadir o ambiente e ele, inclinando-se para a frente, segredou:
- Voc ainda no gosta da idia de casamento, no ?
Maggie ia responder, preparando-se para argumentar, mas Kane tocou-lhe a mo, por sobre a mesa, e continuou:
- Eu sei que no. Mas  que tenho to pouco tempo para tentar convenc-la! Seria justo se me desse uma chance, no acha?
Ela assentiu, encantada com a suavidade e franqueza que descobriu no homem que iria ser seu marido. 
Kane abriu um sorriso largo e prosseguiu:
- Nosso relacionamento profissional  um sucesso e nosso casamento pode ser uma extenso disso. Seria como uma... sociedade. Uma parceria. Um acordo de negcios... No vamos esperar nada um do outro. Voc mesma disse... No estamos apaixonados um pelo outro.
Maggie encarou-o, imaginando se Kane, de fato, ainda no percebera que estava se apaixonando por ele. 
- No havendo amor, estaramos muito mais livres, no acha? - ele continuava argumentando. - Acho que o grande problema dos casamentos  que as pessoas esperam demais umas das outras. Isso  irreal! As expectativas so cada vez maiores e, como no podem supri-Ias, todos se decepcionam. Se tivermos uma idia clara do que ser nosso casamento, tenho certeza de que poderemos viver muito bem juntos.
Maggie assentiu de leve, sem saber ao certo se, de fato, concordava com tal teoria.
- Maggie, esta situao toda envolve muito... sentimento de minha parte. Sabe, jamais pensei em ter filhos. Nunca pensei em me casar outra vez...
Maggie sabia que o primeiro casamento dele fora um fracasso, mas no conhecia os detalhes da histria, por isso continuou calada, apenas olhando-o, como se o incentivasse a falar.
- Fiquei emocionado quando soube que seria pai - ele seguiu em frente, percebendo que estava sendo ouvido com muita ateno, imaginando se a estaria convencendo ou no. - E foi maravilhoso descobrir que voc era a me.
Para sua surpresa, Maggie notou que a voz dele se embargava. Kane desviou o olhar, esperando algum tempo at voltar  conversa:
- E me parece tudo to perfeito agora! Porque gosto muito de voc e a respeito ainda mais. E... seu filho precisa de um pai. Precisa de mim!
Ela tinha a garganta seca. Sentia vontade de chorar. Sabia que no poderia dizer nada ou comearia a soluar ali mesmo.
- Maggie, no estou pedindo muito, estou? - Kane insistiu. - Na verdade, quero muito mais dar do que receber.
Ela reconhecia a verdade naquelas palavras. No tinha nada a temer, ou a perder. E entendia que, do ponto de vista de Kane, o que ele oferecia era proteo, segurana, e a paternidade para uma criana que, antes, ela pretendera criar sozinha. No podia recusar tamanha bondade.
Mesmo assim, ainda havia certa resistncia em seu corao. Era como se Tom estivesse novamente diante de seus olhos, como se ouvisse mais uma vez suas palavras duras, insensveis, e lembrar-se de como algo que parecera to bom a princpio tornara-se um terror.
Sabia que Kane no era Tom, mas no se sentia pronta para nenhum tipo de ligao. No entanto, no sabia como explicar a Kane o que sentia. E, pensando rapidamente, apegou-se a outro problema que via nos planos dele:
- Kane, aprecio sua honestidade e entendo o que est me propondo. Mas o fato  que no tenho certeza de que isso poderia dar certo.
- Por que no?
- Voc diz que ser um acordo puramente de parceria. Assim, entendo que deva ser platnico. Sei que  embaraoso, mas... sinto que h alguma... atrao fsica entre ns... Talvez voc no a sinta, mas...
Kane riu, fazendo-a interromper-se.
- Ento voc percebeu... - disse ele. - Pode acreditar, Maggie, eu tambm sinto o mesmo.
Isso era um alvio e um grande perigo, refletiu ela. 
- No acho que deva se preocupar com isso - Kane completou. - As mulheres costumam levar esse tipo de coisa mais a srio do que os homens. Mas somos seres humanos e, assim, capazes de controlar nossos impulsos, no acha? Podemos lidar bem com essa... atrao.
Maggie mordeu o lbio inferior, suspeitando de que no estivesse to certa quanto ele sobre suas sensaes. 
- Acha que somos assim to modernos? - conseguiu murmurar.
- Tenho certeza disso.
- Pois eu acho que est sonhando...
- Por que, Maggie? Est tentando me dizer que no vai conseguir manter-se afastada de mim?
Ela sorriu.
- No  isso. - Mesmo negando, Maggie sabia que seu rosto estava corado.
Ainda sorrindo, Kane rebateu:
- Ento, depois de tantos esclarecimentos, vai se casar comigo ou no?
- Oh, Kane...
-Vai funcionar. Basta que no deixemos nossa parte emocional falar mais alto.
- Acha mesmo que isso  possvel? No entendo como possa funcionar...
- No h motivos para no funcionar. Ns dois nos casamos por amor da primeira vez. Agora vamos nos casar por motivos prticos apenas. Espere e ver. Vai dar tudo certo.
Maggie olhava-o nos olhos, como se neles buscasse uma confirmao de que suas suspeitas eram totalmente infundadas. Queria demais poder acreditar em suas palavras, confiar em sua animao.
- Kane... - comeou, suave.
Ele cobriu-lhe os lbios levemente com um dedo e inclinou-se, como se tivesse a inteno de beij-la. Maggie estremeceu e calou-se, limitando-se a esperar, ansiosa, por aquele beijo.
Quando j sentia o calor da respirao de Kane nos lbios, uma voz aguda de mulher os interrompeu: 
- Kane Haley, seu grande malandro!
Ambos se afastaram depressa para ver a bela mulher que estava logo ao lado da cadeira dele. 
Kane levantou-se, parecendo pouco  vontade.
- Seu sem-vergonha! Voc devia ter ligado para mim antes do baile de caridade dos Zimmerman! - continuou a estranha, em fingido tom zangado. - Por onde tem andado?
- Catarina... - respondeu ele, confuso. - Desculpe-me, mas... tenho andado ocupado demais. - E segurando a mo de Maggie, apresentou-a: - Esta  Maggie Steward, minha... noiva.
A mulher pareceu surpresa no primeiro instante, mas disfarou bem.
- Parabns, querido! Para voc tambm... Maggie. Bem, estou com um grupo, do outro lado do salo. Por que no se juntam a ns? Kane, alguns de nossos velhos amigos esto l.
- Desculpe-me, Catarina, mas estamos noivos h pouco tempo e com muita pressa para ficarmos a ss. Alis, estvamos de sada. - Ele estendeu a mo para Maggie, e ela se levantou.
Ficou bvio para Catarina que estava sendo dispensada. Sem perder a classe, porm, ela acenou-lhes um adeus e se afastou.
J no ptio do estacionamento, Maggie levantou a gola do casaco contra o frio da noite, enquanto observava: 
- Que histria foi aquela de me apresentar como sua noiva?
- Digamos que estou sentindo que vai aceitar meu pedido de casamento em breve - Kane brincou. - Acho, at, que nos prximos segundos...
Maggie ainda vacilou, mas o sorriso que enfeitava aquele rosto msculo e bonito era muito perturbador e convincente demais.
- Est bem  aquiesceu.
- Est bem? Est bem! - Kane ergueu-a nos braos e rodopiou com ela pelo estacionamento. Em seguida, sem que Maggie esperasse, beijou-a de maneira apaixonada. Ele sentia-se absolutamente feliz.
Maggie ainda no podia acreditar que havia aceitado o pedido de casamento de Kane. Sentia medo e alegria ao pensar no assunto. Iria se casar com seu chefe... E ter um filho dele. Imaginava a fofoca que seria quando todos na firma soubessem. Corava s em pensar.
As primeiras pessoas que seriam notificadas eram Mark e Jill. Kane planejara jantar com eles, em companhia de Maggie. E ela estava tensa quanto ao que eles poderiam pensar a respeito do acordo que seria seu casamento com Kane.
Na noite do jantar, enquanto seguia no carro dele at a casa de seus futuros cunhados, Maggie observava o bairro em que moravam e via que ele se assemelhava muito quele em que crescera.
A maioria das casas eram sobrados com um grande gramado  frente, que agora estava coberto de neve. E ela teve uma ligeira lembrana da torta de ma cheirando no forno, da msica preferida de sua me tocando no rdio, e dos meninos das casas vizinhas que voltavam para casa conversando animadamente depois de uma partida de hquei. Sem saber por que, ela se emocionou e sentiu lgrimas virem-lhe aos olhos. Estava vivendo'tempo demais em apartamentos, concluiu.
A casa de Mark e Jill era uma das mais bonitas do quarteiro e, assim que saiu do carro e pisou na varanda da frente, pde sentir o calor da famlia que vivia ali, mesmo sem ter visto nenhum de seus membros.
Quando entraram, duas crianas ruivas apareceram no topo da escada e desceram correndo, com pequenos gritinhos de entusiasmo, para saudar o tio que chegava.
Kane pegou ambos no colo e jogou-os sobre o sof, em seguida, fazendo-lhes ccegas e provocando gargalhadas deliciosas. Depois os fez levantarem-se e recomporem-se para apresentar-lhes Maggie.
- Estes so Kenny e Jennifer - disse ele. - Digam ol para sua nova tia.
- Oi - cumprimentou Jennifer, um tanto tmida em seus seis anos de idade.
Kenny, mais jovem e bem mais tmido, apenas olhava, vestido no pijama de bolinhas, que devia ser dois nmeros maior que aquele que o pequeno usava.
- Ele vai falar mais tarde - Jennifer explicou, pelo irmo. - S precisa conhec-la melhor primeiro. 
Quando Jill e Mark vieram, todos se cumprimentaram e logo em seguida Jill levou as crianas para a cama, enquanto Mark levava Maggie para a sala ao lado, para mostrar-lhe sua coleo de livros. Estava fazendo sua parte para deix-la  vontade.
Pouco depois, com a volta de Jill, o jantar foi servido. Ela fizera uma especialidade italiana, preparada com frutos do mar , enquanto servia a todos, comentou alguma coisa sobre sua origem italiana.
- , mas a me dela  irlandesa - Mark observou, bem-humorado, apontando para os cabelos ruivos da esposa.  Percebe?
Jill passou, ento, a falar sobre a chegada de seus avs irlandeses  Amrica e de como, sem um tosto, eles tinham conseguido progredir a ponto de terem um pequeno hotel em um importante ponto turstico da costa.
- Sabe, nunca tivemos muito dinheiro em minha famlia, mas em todas as frias, sempre conseguimos viajar para algum local interessante do pas - completou ela. 
O jantar prosseguiu, animado, e Maggie pde perceber como Mark e Jill se entendiam bem. Ficava bvio que se amavam muito. E desejou saber qual era o segredo para alcanar tamanha felicidade conjugal.
O engraado foi que, ao mesmo tempo, sentiu-se vendo Kane com outros olhos. Aquele era um lado dele que nunca vira antes. Ele ria e conversava com o irmo com afeio e carinho, e ela no podia deixar de imaginar como seria o relacionamento que teria com ele no futuro, quando j estivessem casados. Ele continuaria a ser aquele homem agradvel e atencioso?
Tanto Mark quanto Jill pareceram gostar da idia do casamento. A nica coisa que pareceu deix-los pouco satisfeitos foi a parte que se referia a ser apenas um casamento de aparncia.
- Vai ser um acordo - Kane explicava. - No estamos nos casando por amor, como sabem.
- Sei... - Jill comentou, perplexa.
- No nos amamos - Kane prosseguiu -, mas vamos nos casar para podermos cuidar da melhor forma possvel de nosso filho.
Jill assentia, olhando para Kane, depois para Maggie. E, como se percebesse que ela no estava comprando aquela histria, Maggie achou que devia acrescentar:
-  verdade. Tanto eu quanto Kane j fomos casados antes e sabemos como . E, olhando objetivamente, vocs devem saber que no sou do tipo que Kane gosta... Jamais teramos ficado juntos, no fosse pelo beb.
- E qual  o tipo de mulher que acha que Kane gosta? - Jill perguntou, em tom casual.
- Bem, eu costumava acertar os detalhes dos encontros dele... Cheguei a enviar muitas flores, na manh seguinte... - Maggie sorriu, olhando para Kane, buscando confirmao.
- Ultimamente, no - ele comentou. 
- , ultimamente, no.
- Estive ocupado demais no ltimo ano para namorar. Lembram-se da fuso das Empresas TriPac? Trabalhei dia e noite naquele negcio. Depois aconteceu essa procura maluca pela me de meu filho...
-Bem, conversamos e resolvemos que teremos uma cerimnia simples, apenas no cartrio na sexta-feira. Nada mais. - Maggie veio em socorro de Kane.
Jill estalou dois dedos e observou:
- Assim, rpido... Entendo.
Kane olhou para a cunhada, srio, e prosseguiu, como se seu comentrio no tivesse existido:
- Gostaramos que vocs fossem nossas testemunhas. Se tiverem tempo,  claro.
-  claro que sim! - Mark exclamou, animado. - Vamos estar presentes e levar alguns sinos para tornar tudo oficial.
Kane no estava gostando do tom do irmo, mas prosseguiu, mesmo assim:
- Vai ser tudo muito simples. Vamos assinar os papis, dizer nossos votos e depois almoar em algum lugar agradvel. - Naquele momento, olhou para Maggie, buscando a confirmao de suas palavras. - Depois vamos voltar ao trabalho.
- Mesmo? Vai ser assim to simples? - Jill interferiu, inconformada. Olhou para o marido e chutou-o de leve por baixo da mesa. - Muito moderno, eu diria. Incrivelmente moderno!
Mark parecia preocupado, como se soubesse que sua esposa estava prestes a fazer alguma coisa inusitada, mas ela apenas se inclinou e props:
- Deixem-nos levar vocs para almoar, est bem. Gosto de fazer planos.
- Claro... - Kane concordou, erguendo as sobrancelhas para Maggie, que tambm assentiu de pronto. - Seria timo.
O jantar terminou e Mark levou Maggie at a sala novamente para mostrar-lhe algumas fotos de Kane criana e adolescente. Maggie adorou cada uma delas.
Pouco depois, Kane e Mark sara para alugar um filme e Maggie foi at a cozinha para ajudar Jill com a loua. Sem perda de tempo, a cunhada de Kane foi direto ao assunto:
- Deve estar curiosa sobre o primeiro casamento de Kane e sobre sua esposa... 
- Oh, sim, claro... - Maggie respondeu, surpresa, enquanto enxugava os pratos.
- Ns duas sabemos que ele mesmo no lhe diria nada, concorda?
-  provvel...
- Pois eu acho que voc merece saber. No deve mergulhar nesse casamento sem saber de tudo que houve. Portanto, l vai: Crystal era alta, elegante, linda. Mas eu no a suportava. Era o que se costuma chamar de "mulher cara". Difcil de manter financeiramente, entende?
- Entendo.
- Portanto, o que Kane poderia ter visto nela? - Jill prosseguiu, sempre muito franca. - Como sabemos, o amor  cego. E at acho que ele pensava am-la de verdade. Talvez seja por isso que Kane d tanta importncia ao fato de vocs no se amarem. Alis, esto ambos indo para esse casamento de olhos bem abertos, devo dizer.
Maggie colocou outro prato seco sobre a pia e encarou Jill. No sabia se ela estava falando srio ou brincando com a situao. Mas, ao que parecia, havia muita seriedade em suas palavras.
- Bem, Kane podia manter uma mulher cara - Jill continuou -, mas ele  muito esperto, sabe? E, assim que a paixo acabou, ele comeou a perceber que Crystal amava muito mais o dinheiro do que poderia amar qualquer ser humano. Ento, deixou de ser to... generoso. E, quanto menos dinheiro ele dava a ela, mais Crystal se rebelava. E, um belo dia, quando se fartou da situao, abandonou-o para arrumar outro tolo cheio de dinheiro.
- Ento... Crystal se casou com ele apenas por interesse? - Maggie no podia conceber a idia de uma mulher casando-se com Kane sem am-lo. Ela mesma j estava apaixonada. Mas no podia deixar que Jill soubesse disso, embora o olhar perspicaz da outra a incomodasse.
- No fim, nenhum dos dois se suportava - revelou Jill. - Ela disse bem diante de mim que tinha mais alguns anos de beleza e que achava merecer bem mais por isso. Era assim que dava valor aos votos de casamento...
- Oh, pobre Kane...
- Bem, mas precisamos admitir que h uma certa lgica no raciocnio dela. Assim que a beleza a abandonar, Crystal estar sozinha. Sim, porque no tem outra qualidade que compense a perda da aparncia... Mas, seja como for, Kane jamais comete o mesmo erro. Talvez, at, tenha percebido como ela era antes de se casar, mas achou que poderia mud-la.
- Jill meneou a cabea, como se no admitisse aquela hiptese.
- As pessoas no podem ser mudadas assim. Se alguma mudana  passvel de ocorrer, deve vir de dentro para fora. No caso de Kane e Crystal, simplesmente no aconteceu.
Maggie imaginava se Kane ainda sentiria alguma coisa pela ex-esposa. Talvez sua m experincia no casamento o tivesse marcado tanto quanto o que restara do casamento dela com Tom... Mas era Kane quem queria repetir a dose, pensou.
- Bem, se eu e Kane tivermos problemas, posso garantir que no ser nesse contexto - murmurou. 
- Ah, isso eu percebi desde o primeiro instante em que a vi. Na verdade, acho que voc  a companheira perfeita para o meu cunhado.
Maggie sorriu e perguntou:
- Por que diz isso? Voc mal me conhece... 
- Kane jamais foi do tipo pacato, que se casa, sabe? Namorava como um louco quando era mais jovem. Uma garota por noite. Nunca levou nada a srio, com exceo de Crystal. Algo, nela, deve t-lo afetado de alguma forma. - Jill aproximou-se e tocou o brao de Maggie, falando mais baixo: - Minha teoria  que ela veio de uma famlia antiga de Boston, como o pai dele. E foi isso que o atraiu.
- O pai dele? Achei que ele tivesse morrido quando Kane ainda era pequeno...
- E morreu, mesmo. Mas isso teve um grande efeito na vida de Kane. Bem, creio que essa histria  Kane quem deve lhe contar, no eu.
Maggie no insistiu. J obtivera muitas informaes para uma noite.
Jill retirou o sorvete que preparara da geladeira e, com Maggie, arrumou as taas sobre a mesa. Serviram-se,  espera dos homens, conversando sobre assuntos corriqueiros.
- Pena haver to pouco tempo para os preparativos do casamento - Jill comentou pouco depois, quando ambas voltaram  sala. - O vestido de noiva... Mas deve ter tido um vestido e uma festa em seu primeiro casamento, no?
- Na verdade, no - Maggie confessou. - Ns praticamente fugimos juntos.
- E voc nunca teve um vestido de noiva?
- No. Mas no se preocupe com isso, eu no me importo.
- Imagino que, de certa forma, ainda esteja magoada pela perda de seu marido...
- No.
- No? Como assim, no?
- No me sinto magoada. Por que achou isso?
- Foi o que Kane me disse... Bem, pelo menos foi a impresso que tive.
- Mas eu nunca disse isso a ele. No sei o que o faz pensar assim.
- Porque seria a coisa mais natural, eu acho. Mas j que voc diz que no...
Maggie ergueu os olhos e encarou Jill.
- Meu primeiro casamento no foi particularmente feliz - revelou. - Foi triste que Tom tenha morrido to jovem, sim, mas de certa forma, foi um alvio para mim. Minha vida com ele era, no mnimo, miservel. 
Jill arregalou os olhos e tomou-lhe as mos nas suas. 
- Oh, Maggie, eu sinto tanto! No podia imaginar... 
- Essa  uma das razes pelas quais tenho hesitado tanto em me casar com Kane.
- Sabe de uma coisa, acho que se Kane no sabe sobre seu outro casamento, voc devia contar-lhe a verdade.
Maggie assentiu. Devia contar-lhe, sim, mas faltava tempo... e coragem para comear a desenterrar velhos fantasmas.





















CAPTULO VII

Quando o dia marcado para a cerimnia chegou, Maggie sentiu que comeava a entrar em pnico.
Ia se casar! Mas no se podia dar ao luxo de entrar em pnico. No naquele momento, pensou. Estava agindo assim nica e exclusivamente por causa de seu filho e o faria da maneira certa.
Depois de um longo e relaxante banho, Maggie vestiu-se com esmero, usando um conjunto de seda marfim que j estava comeando a ficar apertado na cintura, maquiou-se com perfeio e esperou com pacincia, os olhos presos aos ponteiros do relgio.
Kane veio apanh-la s dez horas em ponto, exatamente como haviam combinado.
- Est nervosa?  ele perguntou, passando o par de luvas de uma mo para a outra, ansioso.
- No. Acho que a verdadeira denominao para o que estou sentindo  apavorada.  foi a resposta.
- Que coincidncia!  Kane pegou a pequena mala que Maggie preparara e olhou ao redor, indagando: - S isso?! No vai levar mais nada?
- No  ela respondeu, serena.
Parecia-lhe estranho pensar que no voltaria para casa naquela noite. Mas, antes de fechar a porta atrs de si, Maggie voltou-se e olhou  sua volta, despedindo-se mais uma vez de seu apartamento, da vida antiga que ficava para trs... de todas as lembranas do passado, mesmo a parte tempestuosa que vivera com Tom, e depois sentiu-se aliviada em poder das as costas a tudo aquilo e deixar que Kane fechasse a porta e a separasse do que ficava ali.
No conversaram muito no caminho at o cartrio. Mark e Jill os esperavam  porta e entraram os quatro juntos. Depois de assinarem alguns papis, colocaram-se diante de um oficial de justia que parecia enfadado com o servio montono e ergueram as mos para fazerem seus votos como marido e mulher.
A cerimnia transcorreu com tranquilidade. E foi assim, simples e fcil. Depois de alguns minutos estavam legalmente casados.
Maggie baixou os olhos para o anel que Kane colocava em seu dedo e depois ergueu-os para encar-lo. Foi ento que um vazio estranho a tomou, deixando-a, de repente, sensvel.
No conseguia acreditar que se casara pela segunda vez sem ter uma cerimnia que correspondesse aos seus sonhos...
De repente, uma voz eufrica fez com que Maggie voltasse  realidade.
- Vamos!  Jill convidou, alegre.  Fizemos reservas no restaurante do clube.
Ela se referia ao clube que Mark e Kane freqentavam quando queriam jogar golfe. Jill preferia o tnis, como explicou a Maggie enquanto caminhavam de volta aos carros. Era estranho porque, at aquele momento, ela era a nica que falava alguma coisa.
De repente, Kane falou bruscamente:
- Vamos seguir vocs.
Mais uma vez estavam a ss no automvel e Maggie comeavam a sentir a cabea pesada, em um prenncio de dor. O beb estava inquieto em seu ventre.
Na verdade, Maggie sabia que no devia, nem podia, reclamar de nada. Se queria algo mais do que a cerimnia rpida e simples do cartrio, devia ter avisado Kane. Ele, com certeza, a teria atendido.
No entanto, mesmo tendo essa certeza, sentiu uma vontade enorme de chorar. Uma sensao de frio a invadiu e ela abraou-se para sentir-se aquecida.


O estacionamento do clube estava lotado e eles demoraram para encontrar uma vaga.
- As pessoas costumam jogar golfe na neve?  Maggie estranhou, olhando para todos os carros enquanto tentava estabilizar suas emoes.
- Claro que no  Kane respondeu em tom casual.  Deve estar havendo alguma festa ou algo parecido.
Saindo do automvel, ela comeou a andar pelo caminho que levava ao prdio baixo e amplo, sem saber como iniciar uma nova conversa com o marido.
Jill aproximou-se com rapidez, puxando-a de leve para um lado, e mais uma vez livrou-a daquele incmodo silncio.
- Venha por aqui  segredou-lhe ao ouvido.  Pelo toalete feminino. H algo que quero lhe mostrar.
Maggie a seguiu, sem reagir, at que chegaram ao pequeno compartimento para guardar roupas e volumes, no toalete feminino, onde percebeu, na penumbra, um vestido pendurado em um armrio de ao.
Estava diante do mais belo vestido de noiva que j vira. No conseguiu conter o suspiro que lhe escapou dos lbios, em um misto de emoo e surpresa.
- Gostou?  Jill quis saber, sorrindo.
- Mas claro que sim! Como voc pde pensar que eu no gostaria? o vestido mais bonito que j vi em toda a minha vida!
- Que bom! Ento, comece a se despir, querida, porque voc vai usa-lo.
- O que?!
- Bem, eu espero apenas que ele sirva. De qualquer maneira, tenho uma costureira de sobreaviso, caso seja necessria alguma mudana de ultima hora. Agora, apresse-se! Esto todos esperando pela noiva!
Ento, toda a decepo que sentira at aquele momento desapareceu como que por encanto.
- Jill...  Maggie comeou a protesta, sem entender ao certo quem poderia estar esperando, mas as coisas estavam acontecendo depressa demais para que pudesse raciocinar direito.
Com a ajuda de Jill, despiu seu conjunto e colocou o vestido que, por ter a cintura alta, ajustou-se perfeitamente a seu corpo. Ento, voltando-se para o espelho de parede inteira a seu lado, ficou pasma diante do que viu.
Como um vestido podia operar tal milagre?, perguntou-se, observando com prazer sua imagem refletida no espelho.
- Oh, Jill...  conseguiu murmurar. 
- Olhe, deixe-me ajeitar seus cabelos. No precisamos arrumar demais porque o vu vai cobrir grande parte deles.
- Mas...
- No h tempo a perder, querida!
Minutos depois, ambas estavam seguindo em direo ao grande salo do clube. Maggie podia ouvir a msica tocando, suave, em um rgo. E era a Marcha Nupcial!
E, sem que tivesse tempo de esboar nenhuma reao, pilhou-se entrando no salo, estupefata diante do que via.
Havia muitas pessoas ali e ela conhecia a todas! Quase todos os funcionrios da Kane Haley e Associados estavam presentes.
Maggie olhou para todos, de lbios entreabertos, absolutamente surpresa, enquanto a multido se abria em duas partes e Kane surgia, parecendo-lhe incrivelmente atraente vestido em um elegante terno negro. Mark estava a seu lado, e junto dos dois havia um padre.
Maggie voltou-se para Jill, mas esta cuidava de seus dois filhos, que vinham para juntar-se  noiva e acompanh-la at o altar montado em uma das extremidades do salo. Jennifer levava uma cestinha de ptalas e ia espalhando-as pelo caminho conforme avanavam em direo a Kane.
- V andando  Jill sussurrou ao ouvido de Maggie.  Estarei logo atrs.
Maggie comeou a andar devagar. Entendia muito bem o que estava acontecendo agora e deixava-se levar, sentindo que, afinal, tinha direito de ser feliz. Poque era assim que se sentia: absolutamente feliz.
Kane olhava-a, atento e maravilhado, encantado com a transformao que o vestido de noiva fizera. Sorria e recebia seu sorriso de volta, nos lbios trmulos de Maggie.
Para ela, foi como se tudo estivesse coberto por uma estranha e irresistvel magia. A msica, as flores que decoravam o salo, as pessoas que olhavam participando da cerimnia... Aquilo era o que imaginava ser um casamento de fato!
Maggie mal ouvia as palavras do padre. Era como se uma luminosidade suave e encantadora estivesse alegrando a tudo e a todos ali, deixando-a flutuar em um mar de felicidade. Conseguiu dizer prometo no momento correto, mas o fez de modo um tanto abrupto porque algumas das pessoas ali presentes riram discretamente ao ouvi-la.
Ento vieram as palavras agora pode beijar a noiva e Maggie voltou-se para Kane, aceitando seus lbios com toda a alegria de seu corao.
Houve muitos aplausos e os noivos se voltaram para os presentes, sorrindo. Depois seguiram para o salo contguo, muito maior, onde havia todo um aparato de banquete, com mesas longas lindamente decoradas, muita comida e uma orquestra que comeou a tocar assim que a comemorao iniciou.
Sem poder mais conter-se, Maggie segredou ao ouvido de Kane:
- Voc sabia disso tudo, no ??
- Na verdade, no. Jill pediu-me para dar o dia livre para os funcionrios da firma, em uma espcie de comemorao de nosso casamento, e eu percebi que havia algo sendo preparado s minhas costas. Mas Jill  assim, sabe? Sempre alegre, procurando fazer o melhor em cada situao. E sempre com um bom humor incrvel!
Maggie sorriu ainda mais, felicssima. Naquele momento sua melhor amiga era, sem sombra de dvida, a cunhada.
Estavam agora diante da mesa principal, recebendo os cumprimentos. Jill aproximou-se e Maggie no perdeu tempo para agradecer:
- Voc, hein! Porque fez tudo isso? E como o fez? Teve to pouco tempo...
- Sempre me disseram que sou ligada em uma tomada de duzentos e vinte, sabia? E acho que no   toa. Alm do mais, tive ajuda.  Jill fez um sinal no muito discreto em direo a Sissi, que se colocara na fila para cumprimentar os noivos.
Maggie sorriu para ela, recebendo um aceno de volta.
- A culpa no foi minha!  disse ela, de longe, como sempre fazia.
- Estou to contente por voc ter gostado!  Jill comentou, abraando Maggie.  Depois de ter comeado a ajeitar tudo, fiquei imaginando que talvez no gostasse da minha interferncia, que no quisesse, de fato, um casamento tradicional, uma festa... Mas acabei achando que estava fazendo a coisa certa e segui em frente.
- Estou feliz por t-lo feito. Sabe, fiquei to frustrada, to deprimida, no cartrio...
- , eu percebi. Mas prometo no fazer mais surpresas e nem agir sem seu conhecimento no futuro, est bem?
- No faa isso!  Maggie estava radiante. Algum trouxe-lhe um prato com diversos quitutes, mas estava feliz demais para comer.
Ela seguia, de mesa em mesa, de casal em casal, agradecendo suas presenas, aceitando seus elogios e cumprimentos. No estava acostumada a ser o centro das atenes, mas tinha que admitir que a sensao era extremamente agradvel.
No entanto, a todo instante buscava Kane com os olhos. E ficava feliz quando o encontrava tambm  sua procura. Quando seus olhares se encontravam e eles trocavam sorrisos, era como se uma mensagem secreta fosse passada de um para o outro.
Maggie continuava seguindo, por entre os convidados, satisfeita por encontrar suas melhores amigas na firma: Jlia Oman, Sharon Waterton, Lauren Mitchell e Jen Holder. Todas tinham se casado recentemente e isso dava-lhes muito em comum. 
- Mas acabei de saber que voc est grvida de Kane!  Jlia exclamou, sacudindo a bela cabeleira loira e passando a mo por seu ventre, tambm volumoso.
- , vamos ter um filho, sim  Maggie confirmou.
- Foi uma surpresa para todas ns, sabia?
- Surpresa, mas alegria tambm!  Sharon acrescentou. Tambm ela estava grvida.  Todo mundo a considera muito simptica e gentil Maggie. E todos adoram Kane tambm,  claro.
- Ele  um excelente patro, mas, s vezes, consegue ser um tanto difcil, no ?  Maggie comentou.
- Bem, ele  homem, no?  Lauren interferiu, com seu jeito despachado.  O que se pode esperar?
Todas riram, depois passaram a examinar o ventre de Maggie com maior ateno.
- Vai voltar a trabalhar depois que o beb nascer?  Jen quis saber. Ela mesma voltara, depois de ter dado  luz uma linda menina, em novembro.
- Ainda no falamos a respeito  Maggie explicou.  Mas espero poder trabalhar pelo menos na maior parte da semana. Alm do mais, teremos nossa maravilhosa creche, no ? E, assim, ser muito mais fcil.
- A creche...  Jlia trocou olhares com as outras.  Certo...
Percebendo que havia algo de errado, Maggie interessou-se:
- Qual  o problema?
- Nada, nada...  Lauren respondeu, rpida.  Agora no  o momento para esta conversa.
- Acho melhor vocs me dizerem, ou no vou sossegar a noite toda.
- No queremos que fique aborrecida. Alm do mais, vai precisar de toda sua ateno esta noite...
Todas riram da insinuao de Jen. Mas Maggie sentiu-se tensa. Como poderia explica a suas amigas que aquele casamento no era normal, que no haveria noite de npcias, nem uma lua-de-mel? Por enquanto, era melhor deixar que pensassem o contrario.
- Por favor, expliquem o que h de errado com a creche  insistiu.
- Est bem  Jlia aquiesceu.   que... h boatos de que... no vai gaver creche alguma.
- Como assim?  Maggie espantou-se.
- No est sabendo de nada?
- No...  Mas ela lembrava-se de que Kane reagira de forma estranha quando tocara no assunto.
- No se preocupe com isso  Lauren aconselhou.  No, em um dia como este! Vamos conversar a respeito quando voc voltar ao trabalho.
- Amanha, ento...
- Amanha? Mas vocs no vo viajar em lua-de-mel?
- No, no vamos a lugar algum.
- No?!  Jlia parecia surpresa.  Ento, para que tivemos todo aquele trabalho?
Maggie encarou-a, preplexa.
- No sei do que est falando  explicou.
- Parece que estragamos a surpresa  Jen observou.  Ns fizemos uma vaquinha e arranjamos uma reserva de trs noites para vocs no Chivas Hitz. Comeando hoje,  claro.
Maggie arregalou os olhos. Mas as amigas estavam comentando sobre o belssimo hotel e tinham desviado sua ateno dela, o que no as deixou perceberem seu embarao. Tentava manter o sorriso nos lbios, mas pensava rapidamente num meio de sair daquela situao.
Uma lua-de-mel no fazia parte dos planos, avaliava. No entendia bem por que pensava assim, mas achava que algumas noites no Chivas Ritz seriam muito mais perigosas do que se fossem passadas no apartamento de Kane.
Mais tarde, o bolo foi cortado e Maggie arremessou seu buqu na direo das mos aflitas das mulheres solteiras.
Em seguida, os noivos receberam oficialmente o presente que o pessoal da firma lhes oferecia. Os convidados comearam a se despedir e pouco depois Kane e Maggie voltaram ao guarda-volumes feminino e masculino, onde trocaram de roupas, seguindo depois para o carro, sob votos de felicidades daqueles que ainda permaneciam no salo.
- Acredita no que aconteceu?  Maggie comentou, enquanto se dirigiam  auto-estrada.  Toda essa gente... foram to gentis conosco. Tenho at vontade de chorar...
Era engraado, ela avaliava. Sentira vontade de chorar quando tinham chegado ali, mas por um motivo completamente diferente. Agora estava de fato casada. Lanou um olhar furtivo para Kane e sentiu seu corao bater mais forte. Estava realmente casada.


O quarto do hotel era nada menos do que espetacular, com uma enorme cama redonda ao centro, dois banheiros separados, uma banheira de hidromassagem imensa e uma vista de tirar o flego da cidade de Chicago e do lago.
Em uma mesa de canto, estrategicamente colocada, havia uma cesta enorme com frutas, chocolates caros e uma garrafa de champanhe francs, em um balde de gelo, acompanhada por duas taas de cristal. Tudo que um casal de noivos precisava para uma noite de npcias perfeita...
O nico problema era que aquele no era um casamento normal.
E isso tornava as coisas ainda mais estranhas.
Kane e Maggie desfizeram a mala, colocaram roupas menos formais e depois, ao se encontrarem novamente no quarto, olharam-se, um tanto tensos.
- Vamos dar uma volta  convidou ele, em um impulso.
- Mas... Est to frio l fora...
- Podemos colocar nossos casacos. Venha, vamos andar pelo per... Tenho certeza de que voc vai gostar.  Kane estendeu-lhe a mo e ficou esperando pela resposta.
- Est bem  Maggie concordou, aceitando-lhe a mo.
A espcie de passarela ao redor do per estava deserta, embora houvesse msica soando nos alto-falantes que estavam instalados ao longo do cais. 
Caminharam juntos, abraados, devido ao frio e s leves rajadas de vento que, s vezes, vinham do lago. Quando se cansaram de passar frio, tornaram a entrar no prdio que ficava em uma das extremidades do per. Era ali que os turistas se reuniam, onde estavam as barraquinhas e comida e de souvenirs.
Kane comprou um cachorro-quente e tentou partilh-lo com Maggie, mas ela estava ainda excitada demais com os ltimos acontecimentos para sentir fome. Sentaram-se em um banco de madeira, observando um palhao que divertia algumas crianas, a poucos metros de distncia.
- Dentro de alguns anos, nosso filhinho poder estar diante de um palhao desses, tambm, rindo muito  Maggie comentou.
- Ora, no se apresse tanto!  Kane lambia a mostarda que havia cado em seu dedo.  Vamos primeiro aproveitar bem a fase em que ele for apenas um beb, poruqe  s nessa poca que ele vai ser totalmente nosso...
Ela sorriu, pensativa. Instantes depois, indagou:
- Por que achou que nunca teria filhos?
- Por qu? Ora, porque... Olhe s para eles!  Kane apontou para as crianas com um movimento de cabea.  So barulhentos, vivem para fazer arte, no tm sossego por um minuto sequer e perguntam o tempo todo sobre tudo! Sem contar que choram, gritam, exigem teno, querem brinquedos... Crianas so um grande problema, Maggie.
Ela o encarou, surpresa com tais palavras.
- No gosta de crianas?  perguntou.
Kane meneou a cabea, antes de responder:
- No sei, mas acho que no sou fantico por elas, no.
- Mas no parece pensar assim quando se trata de seus sobrinhos...
Ele assentiu. Tinha de admitir que Maggie tinha razo. Mas achava haver uma explicao lgica para isso:
-  diferente. Meus sobrinhos so crianas maravilhosas.
- Sei...  Maggie comeava a sorrir, entendendo aquela linha de raciocnio tortuosa.  Ento, as nicas crianas que voc realmente conhece, voc adora.
- Bem... Talvez seja isso, sim.
Maggie riu, e sem querer, passou o brao pelo dele, de um modo que jamais fizera antes.
Kane notou, e gostou. Na verdade, gostava muito de Maggie. E sabia que precisava prestar ateno a esse sentimento.
Estava frio demais quando acabaram de andar por toda aquela parte do per, e decidiram tomar um txi para voltar ao hotel.
Ao entrarem no quarto, ligaram o aparelho de som e Kane deitou-se na cama, enquanto Maggie descansava em uma poltrona prxima.
O silncio caiu entre ambos, e, pouco depois, ela imaginou que Kane adormecera, j que estava to quieto. Olhou-o, deixando-se encantar pelo modo como o via estendido na cama. Nunca antes o vira assim. E era difcil deixar de pensar em como seria deitar-se a seu lado. Mas no o fez.
Depois de algum tempo, viu-o espreguiar-se, comentou:
- Temos que tomar duas decises.
-  mesmo? Quais?
- O que faremos com o jantar e o que faremos com a cama.
- Acha que ficaria muito estranho se ligssemos para a recepo e pedssemos uma cama extra?
Maggie pensou por instantes. Era a coisa mais lgica a fazerm mas ainda assim, seria estranho, sim, e muito. Todos os funcionrios do hotel comentariam.
Olhou para Kane e percebeu que ele lia seus pensamentos.
- No se preocupe  ele murmurou.  Vamos pensar em alguma coisa antes de irmos nos deitar. Quanto ao jantar, Jill ajeitou isso tambm. Tudo o que temos a fazer  ligar para o servio de quarto e dizer que estamos prontos. Eles traro um jantar maravilhoso, especialmente pedido por minha agitada cunhada.
A comida estava, de fato, maravilhosa, Maggie avaliou, passando o guardanapo pelos lbios. Comeram tranqilamente, depois assistiram televiso por algum tempo e, em seguida, decidiram recolher-se.
- Fique com a cama  Kane disse logo.  Afinal,  quem est grvida aqui. Posso me ajeitar nas poltronas.
Maggie sentiu-se um tanto desconfortvel em permitir que Kane ficasse com a pior parte, mas sabia no haver outra alternativa.
Foi para o banheiro e tomou uma ducha, colocando depois a camisola e o roupo. Quando saiu, viu que Kane estava com um livro nas mos, sentado em uma poltrona.
- Boa noite  disse ela, tirando o roupo e enfiando-se embaixo das cobertas.
- Boa noite  Kane respondeu, um tanto alheio, sem sequer erguer os olhos da leitura.
Maggie sentiu-se aliviada e triste ao mesmo tempo, pois mesmo sabendo que se quisessem fazer seu acordo dar certo teriam de manter cera, distncia, alguma coisa em seu intimo lhe dizia que se sentiria muito melhor se estivesse nos braos dele...
Perguntou-se por quanto tempo ainda iria ficar pensando a respeito. Mas no foi por muito tempo, porque logo o sono a venceu.
Assim que percebeu que Maggie havia adormecido, Kane deixou de prestar ateno ao livro e olhou-a, durante longos momentos. Prestava ateno aos detalhes de seu rosto...
Ainda no acreditava que a me do seu filho era a mesma Maggie que trabalhava ao lado dele h dois anos. Chegou a concluso que uma funcionria to especial quanto ela s poderia ser a melhor esposa que um homem poderia querer.
Sorriu de leve e levantou-se, seguindo para o outro banheiro. Queria tomar um banho antes de deitar-se.
Incrvel: ele, Kane Haley, era uma homem casado novamente.
- Vamos ver se, desta vez, o final ser feliz  comentou para si mesmo, fechando a porta que dava para o quarto.


CAPTULO VIII

Depois de uma noite de sono tranqilo, Maggie acordou sozinha na manh seguinte. Kane lhe deixara um bilhete dizendo que descera para o desjejum e que a esperava no refeitrio.
Estava, com certeza, sendo educado ao dar-lhe a oportunidade de levantar-se e vestir-se com privacidade naquela primeira manh de seu casamento.
Maggie no pde deixar de apreciar tal preocupao da parte dele.
Quando entrou no refeitrio, olhou  sua volta, procurando por Kane. Assim que avistou-o, percebeu que seu marido a olhava com um sorriso de boas-vindas. Ele levantou-se e acenou discretamente para que Maggie se aproximasse.
- Bem, o que vamos fazer com o todo o tempo livre de que dispomos? - perguntou ela, assim que se sentou. Era estranho, mas sentia falta da rotina do trabalho.
Kane serviu-lhe um copo de suco de laranja enquanto pensava.
- O que acha de irmos at a cidade? - sugeriu. - Podemos agir como turistas, conhecer tudo que sempre tivemos vontade mas que, por morarmos aqui, deixamos para outro dia e acabamos nunca tendo tempo de ver.
E assim foi. A primeira coisa que fizeram foi visitar o nonagsimo sexto andar do Edifcio John Hancock, para terem a vista espetacular da cidade que era to comentada pelos que j tinham estado l.
O resto do dia foi gasto em museus, parques e galerias de arte. Kane e Maggie fingiram nunca ter estado em Chicago e apreciaram cada detalhe, fosse ele absolutamente novo ou visto j h muito tempo.
Aproveitaram o tempo livre para conversarem, rirem juntos e, em certos momentos, at brincarem um com o outro.
Aquele, definitivamente, foi um dia de descobertas. Chegaram  concluso de que tinham coisas demais em comum.
Maggie percebeu logo que jamais tinha tido um dia to agradvel. Estar com Kane era como estar com um grande amigo e, ao mesmo tempo, um amante atraente e sedutor.
O nico problema era que ele no era, de fato, seu amante. E seria bom que permanecesse assim, observava ela para si mesma, apesar do fato de que cada toque de Kane a fazia estremecer, mesmo sendo apenas uma gentileza.
 noite, jantaram em uma cantina napolitana magnfica, na avenida Grand, e depois Kane levou-a a um de seus clubes de jazz favoritos, onde ouviram msica de qualidade e saborearam bebidas que eram especialidades da casa, cujo modo de preparo o proprietrio no contava para ningum.
Para voltarem ao hotel, pegaram uma charrete, que era o txi turstico mais apreciado da cidade.
- Por que no fica com a cama esta noite? - Maggie sugeriu quando j entravam no quarto.
Notara que Kane estava com as costas doloridas pela manh e no queria que nada atrapalhasse a lua-de-mel deles, pois estavam aproveitando cada minuto para se conhecerem melhor.
- Podemos revezar - afirmou. - E, depois, eu sou bem menor que voc, dormir na poltrona no vai ser to ruim...
- No. V para a cama. No vou permitir que durma em outro lugar. Afinal, meu filho est a, com voc. E ele precisa de uma me bem descansada e disposta.
Maggie sorriu, acariciando o ventre, que comeava a aparecer.
- Por falar em seu filho - disse, ajeitando as cobertas da cama. - Ele no me parece muito satisfeito com todas as caminhadas que temos feito. Puxa! Como est pulando!
Kane olhou-a ajeitar-se sobre o leito, parecendo, de repente, sem ao. Viu-a passar a mo suavemente pelo local onde sentira os chutes do beb e ficou ali, parado, em silncio.
Maggie ergueu os olhos para ele, sabendo quais eram os pensamentos de Kane. Ento, sem nada dizer, estendeu o brao e tomou-lhe a mo, colocando-a sobre sua pele.
- Bem aqui - murmurou. - Espere s um pouquinho e vai poder senti-lo se mexendo.
A criana moveu-se de novo e a expresso no rosto de Kane mudou.
- Foi isso? - perguntou, os olhos brilhantes. - Acho que senti... Oh, Deus! E ele! - exclamou, sem esconder a euforia que o envolveu.
Kane, sem perceber, foi at a cama e sentou-se ao lado de Maggie. Sem conseguir controlar a ansiedade, colocou ambas as mos sobre o ventre dela, movendo-as s vezes, muito de leve, para poder sentir melhor e seguir os movimentos do beb.
Ela sorriu. Sentia aqueles movimentos j havia algum tempo e lembrava-se da primeira vez, quando se surpreendera pela sensao nunca tida antes.
Uma vida crescia dentro dela e isso era maravilhoso. Pela expresso do marido, tinha certeza de que ele estava sentindo a mesma coisa.
Maggie havia experimentado a mesma alegria ao sentir o primeiro movimento, que considerou como um aviso do beb, de que estava ali, e estava bem. A sensao de poder que se apoderou dela no tinha tamanho. A alegria que a invadiu deixou-a com o corao leve e a certeza de que nada mais que acontecesse em sua vida seria to fantstico como a primeira demonstrao de vida do seu beb.
Naquele momento, conseguia, por meio da expresso enlevada de Kane, reviver aquela experincia. 
Agora no havia mais dvidas: partilhar as experincias da gestao com algum era muito melhor do que viv-Ias sozinha.
- Dizem que os bebs mexem muito mais quando atingem os sete meses, mais ou menos - explicou a Kane. - Pode-se at distinguir o contorno de seus cotovelos ou pezinhos passando sob pele.
Ele sorriu, meio que abobalhado.
- Isto  to... - Mas no conseguiu continuar. No encontrou palavras para descrever a grandiosidade do que sentia.
Sentiu a criana por mais algum tempo, depois endireitou-se, olhou para Maggie e afirmou:
- Vou ser honesto com voc: como j lhe disse antes, nunca imaginei que pudesse sentir o que estou sentindo agora em relao a um beb. Se algum tivesse dito, h alguns meses, que eu ficaria assim, que at me casaria por causa de uma criana, eu teria dado risada. Diria que essa pessoa estava louca...
- Mas voc mudou muito, no?
- Mudei. Sou uma pessoa diferente agora. - Kane olhou-a intensamente e tomou-lhe uma das mos, que passou a acariciar suavemente, como se tivesse medo e machuc-la. - E como isso aconteceu?
De repente, uma vontade imensa de entender como a mudana toda se processara o atingiu. Mas as palavras, embora fossem uma tentativa de explicao, no lhe pareciam suficientes. Mesmo assim, tentou se fazer entender:
- E como se eu estivesse em uma outra existncia, como se passasse a prestar ateno a coisas que nunca notara antes!
- Comigo tambm  assim. Digo... depois que engravidei. Tudo mudou. Tudo que fao de novo cria este sentimento em mim. E corno quando se aprende uma nova habilidade, quando se comea a pintar, ou fazer algum tipo de arte, ou danar ou... apaixonar-se.
Seus olhares se cruzaram e ambos os desviaram, rapidamente. De alguma forma, era embaraoso no estarem amando um ao outro. Kane colocou a mo sobre o ventre de Maggie mais uma vez, esperando pelo movimento do beb que, desta vez, no veio.
- Acho que ele foi dormir - comentou, parecendo um tanto decepcionado.
Mais uma vez, seus olhares se encontraram e, de sbito, compreenderam a delicadeza da situao que viviam. Agora, que o beb parara de se mexer, Maggie estava deitada, vestida apenas em sua camisola, e que ele estava inclinado sobre seu corpo, tocando-a com ambas as mos.
Kane engoliu em seco e comeou a se afastar. Maggie mordeu o lbio inferior e puxou as cobertas sobre si. 
Segundos depois, Kane j estava andando pelo quarto, falando sobre as coisas que tinham feito naquele dia, e Maggie voltava-se para o outro lado, fingindo que seu corao no estava disparado dentro do peito. 
Kane foi para o banheiro e voltou pouco depois, usando apenas a cala do pijama que levara.
Maggie no adormeceu com a mesma facilidade da noite anterior. A presena de Kane era forte demais para que conseguisse relaxar. Cerrou os olhos, afundando a cabea no travesseiro e imaginando por que ele tinha de ser to atraente...
Ele apagou as luzes e deitou-se nas desconfortveis poltronas colocadas juntas. Ficaram ambos acordados, em silncio, por um bom tempo, apenas pensando. Era como se a noite se abrisse diante deles longa e cansativa.
- Maggie? - Kane chamou, pouco depois, em um murmrio.
- Sim?
- Est acordada?
- No. Mas sempre converso muito enquanto durmo.  quando sou mais inteligente... - Ela se ergueu, apoiando-se nos cotovelos, mas no podia v-lo no escuro. - O que foi?
Ele respirou fundo, e havia algo de diferente em seu modo de agir, mas Maggie no soube dizer bem o que seria.
- Gostaria que me dissesse algumas coisas - Kane pediu.
Ela ajeitou-se na cama e no conteve um sorriso. 
- Quer que eu lhe conte uma histria para que durma?  brincou.
- No. Quero que me fale sobre coisas reais. Fatos. Sobre voc. Quero saber tudo. Conte-me sobre seu marido. No sei quase nada sobre seu casamento.
Maggie sentiu-se, de repente, desconfortvel com a conversa. Voltou-se na cama, e murmurou:
- No acho que queira ouvir essa histria.
- Muito bem, ento fale-me sobre sua infncia.
Ela comeou, de maneira teatral:
- Nasci em uma noite tempestuosa e fria em uma cabana de madeira, nas montanhas...
- Maggie, estou falando srio. Quero saber mais coisas sobre voc.
Ela hesitou. No queria falar, mas sabia que, um dia, teria de faz-lo. Ento discorreu brevemente sobre sua educao convencional.
- Freqentei uma escola religiosa, fiz aulas de piano, fui uma boa aluna, nunca morei fora de casa enquanto estudava e fiz primeira comunho. O que mais quer saber?
- Sobre seus pais.
Estavam chegando  parte da histria que a afetava. Maggie tentou manter a voz normal:
- Meu pai era contador e minha me era professora primria.
-Parece que formavam a famlia americana ideal... 
Maggie cerrou os olhos. Devia contar-lhe?, indagava-se. Sua infncia no fora nada ideal...
- Quando conheceu seu marido... Qual era, mesmo, o nome dele?
- Tom.
- Conheceu Tom na escola?  Sim.
Kane manteve-se em silncio por algum tempo, depois fez a pergunta inevitvel:
- Como ele morreu?
- Em um acidente de carro. Estava caando com alguns amigos.
- Sinto muito, Maggie. De verdade.
Maggie sentiu-se, de repente, como uma fraude, diante da compaixo verdadeira que sentia na voz dele. Mordeu o lbio inferior, lutando contra o que sentia, mas no conseguia livrar-se da estranha sensao de o estar enganando.
- Kane, vou contar-lhe toda a verdade - disse, por fim. -Tudo, inclusive as coisas tristes. E, acredite, elas formam a maior parte da minha histria. Mas vou falar primeiro do pior e depois nunca mais quero tocar nesse assunto.
Ele esperou, calado, pensando no que ouvira. 
- Certo - aceitou, por fim.
Maggie respirou fundo, como se estivesse tentando reunir foras para falar. Depois, em voz baixa, comeou: 
- Meu pai era... bem, ele me maltratava.
Kane alarmou-se, sentando-se na poltrona. 
- O qu?!  protestou.
- No fisicamente - ela prosseguiu, explicando. - Verbalmente. Sabe... tenho muita dificuldade em tocar neste assunto, porque  o tipo de coisa que... voc teria de estar presente para compreender por inteiro, sabe?
- Ser?! Acho que quando compartilhamos dores, elas costumam ficar mais amenas - Kane interveio. 
Maggie respirou fundo e tentou continuar:
- No mais das vezes, quando se fala que algum maltratava outras pessoas verbalmente, as pessoas apenas pensam que houve muitos gritos, mas nada to srio assim... E que os pais costumam fazer isso muitas vezes...
Maggie sentiu as lgrimas aflorarem. Limpou-as e continuou:
- O fato  que ele me maltratava, sim, mas quase nunca gritava. E era muito pior do que se gritasse... Ele sempre foi perverso em seu relacionamento comigo, e o pior  que parecia sentir muito prazer com isso:
Kane estava perplexo com aquele relato. Preferiu no dizer nada, pelo menos Maggie terminaria a narrativa mais depressa.
E ela continuou:
- Meu pai procurava atingir-me de todas as formas que podia. Provocava situaes nas quais sabia que eu falharia de algum modo e ento mostrava-me o quanto eu era intil e sem valor.
A voz lhe faltou e Maggie teve de pigarrear para poder prosseguir:
- No h como eu possa mostrar-lhe o quanto ele era destrutivo com suas palavras, sabe? Mas eu passei por tudo aquilo e sei muito bem como era. O velho provrbio sobre as palavras no poderem ferir  uma mentira.
- E como sua me lidava com essa situao? - Kane interessou-se.
- Ela no se importava. Mantinha-se distante. Estava sempre ocupada com alguma reunio na escola ou fazendo alguma coisa para suas aulas, ou ainda visitando algum. E ela me incumbia de preparar as refeies de meu pai e de cuidar da casa a maior parte do tempo. Por isso eu estava sempre  merc do veneno que ele destilava.
Kane nada comentou, mas sentia uma espcie de raiva impotente que o frustrava.
- Casei-me com Tom para fugir daquele clima opressivo que reinava em minha casa - Maggie prosseguiu. - Para escapar de meu pai. Sei que deve estar se perguntando por que eu simplesmente no sa de casa... Afinal, estava com vinte anos. Poderia ter alugado um apartamento, arranjado um emprego...
Ela hesitava, procurando as palavras que descrevessem melhor a situao pela qual passara havia tantos anos.
- Sabe, no sei se pode entender, mas... quando uma pessoa recebe tantas crticas, o tempo todo, ela sente-se muito mal, muito pequena... No importa o quanto diga a si mesma que tudo  bobagem, que no deve dar crdito ao que ouve, as palavras ferem, ficam marcadas em voc... E parte de seu ser acaba acreditando que elas so verdadeiras, que voc no vale nada e  absolutamente intil, feia... tola... e...
- Maggie?
Ela pde perceber que ele se movimentava e pediu, depressa:
- No, Kane, por favor! Fique onde est, ou no serei capaz de contar-lhe tudo.
Ele aquietou-se, e Maggie seguiu em frente em sua narrativa:
- No meu caso, depois de ouvir tantas crticas depreciativas, acabei por me sentir totalmente intil. Comeou devagar, mas  medida que minha insegurana foi aumentando eu acabei por pensar que dependia de outras pessoas para viver...
Maggie limpou as lgrimas que lhe banhavam o rosto com as costas da mo e voltou a falar:
- E, quando encontrei Tom, achei que dependia completamente dele. Talvez, se algum tivesse me aconselhado, eu tivesse ficado sozinha, tentado viver sem ningum... Mas no tive ajuda de ningum, portanto acabei por aceitar o pedido de casamento que Tom me havia feito.
- No o amava?
-Ah, sim. No comeo, sim. Mas... sabe o que dizem: uma mulher tende a se casar com uma cpia do que foi seu pai se vier de uma famlia problemtica... 
Maggie respirou fundo.
- Posso parecer uma chorona ao lhe dizer isto, mas...  verdade. Tom acabou sendo uma nova verso de meu pai. No bebia demais e nem me fazia sentar e ouvir durante horas sobre minha fraqueza de carter, como meu pai fazia, mas tentava controlar-me  sua maneira.
A expresso do rosto de Maggie era de revolta. Por isso ela preferira conversar no escuro, assim Kane no poderia ver as marcas que tanto sofrimento lhe deixara.
- Ele conseguia colocar as coisas de modo que me ferissem naquilo em que eu era mais vulnervel. E depois fazia coisas como... Bem, ele arruinava qualquer chance que eu tinha de fazer amizades, sempre colocando-se contra tudo que eu pudesse fazer e que no o envolvesse. At ligava para os locais onde eu dissera ter ido, para conferir, para controlar...
Mas voc no protestava quanto a isso, Maggie? - Kane perguntou.
- Claro que sim. E quando eu protestava, dizia que agia assim porque me amava muito e no queria que nada de mal me acontecesse.
Kane meneou a cabea, irritado com a atitude de um homem assim.
- Acabei por entender que ele apenas queria manter-me sob seu controle - Maggie prosseguiu, sem querer parar o que comeara. - Talvez at me amasse tanto que quisesse saber absolutamente tudo sobre mim, no sei...
Havia muito mais a contar, mas ela achou que j dera uma viso suficiente do que fora sua vida de casada, e ento concluiu:
- S estou lhe cortando isto tudo porque parece achar que ainda choro a morte de Tom. Agora j sabe que no  assim. Sinto que ele tenha morrido,  claro, mas no sinto estar sem sua presena a meu lado.
Houve alguns momentos de silncio, depois Kane disse, quase sem voz:
- Sinto muito por tudo, Maggie. Sinto de fato.
- No sinta. De certa forma, eu me culpo pelo que passei. Conheci Tom quando estava muito enfraquecida, muito carente, e foi praticamente um pedido para que me tratasse como tratou. Depois, mais tarde, eu arranjei algo fora de casa a que me agarrar. Meu emprego.
- Maggie,  isso que no entendo. Jamais poderia imaginar que voc no tivesse auto-estima. No escritrio, voc  firme, decidida...
- Kane, sempre foi maravilhoso trabalhar com voc. Mas levou algum tempo at que eu conseguisse sentir que tinha algum valor em meu trabalho e, assim, crescer um pouco nele. No escritrio, eu me sentia bem, firme, mas em casa... era um problema. Trabalhar para voc foi o que, na verdade, me deu foras. Voc me ajudou a encontrar a confiana de que tanto precisava!
- Fico satisfeito por isso. Mas gostaria de ter podido fazer mais por voc. Gostaria de poder ter feito algo que impedisse todas essas coisas ruins de terem acontecido em sua vida.
Kane, finalmente, compreendia por que ela vacilara tanto diante do pedido de casamento que ele fizera. Tinha suas prprias razes para no querer se casar novamente, mas as dela eram ainda mais fortes, agora via.
Ele sempre pensara que tivera uma grande decepo com Crystal, que preferia dinheiro a amor, mas tudo que precisara fazer fora separar-se dela. Maggie, ao contrrio, vivera um pesadelo atrs do outro.
- Mais uma coisa - murmurou ela. - Quero que fique bem claro, Kane, que jamais permitirei que algum me leve a viver daquela forma outra vez. Cresci muito nestes ltimos dois anos. Sou mais forte agora e sei que no tenho que me sujeitar a ningum, nunca mais! E no o farei.
Kane no respondeu. O que poderia dizer?, pensou. Poderia prometer que jamais a trataria daquela forma. Mas seria apenas uma promessa. Sabia, porm, que isso jamais aconteceria. Respeitava-a demais. E no conseguia ver-se como o tipo de homem que sente prazer em fazer uma mulher sofrer. Sabia, porm, que naquele momento no havia como provar a Maggie que seria bom pra ela.
- Agora sabe muito sobre mim, mas ainda no sei quase nada a seu respeito - ela protestou, suave. 
- No h muito a dizer. - E ele, de fato, pensava assim. Sua vida era um livro aberto.
- Espero que no se importe, mas Jill me falou sobre Crystal.
- Crystal? Quem  Crystal?
Maggie sorriu, percebendo a brincadeira, mas insistiu: 
- Sua primeira esposa...
- Nunca ouvi falar.
Ento, Jill tinha razo, Maggie avaliou. Kane no queria tocar no assunto porque ele o incomodava. Concluiu que, quando ele dissera que as dores repartidas doam menos, s valia quando no era a dor dele. Mas ela falara sobre seu passado e sentia-se aliviada. Nunca mais teria de falar sobre aquilo.
Bocejou, subitamente sonolenta.
- Acho que est na hora de dormir - comentou, voltando-se no leito. - Boa noite, Kane. Durma bem. 
Tudo o que compraram foi enviado ao apartamento dele e, quando voltaram ao quarto de hotel, no fim da tarde, estavam ambos exaustos. Revezaram-se no uso da banheira, em um longo banho relaxante, mas ambos no deixaram de imaginar como teria sido mais divertido se pudessem t-lo partilhado... Mais tarde, pediram que um lanche leve fosse levado ao quarto e foram dormir cedo, dormindo quase que de imediato- Boa noite, Maggie. Tenha bons sonhos.
Kane ficou ali, sentado, no escuro, por muito tempo, ouvindo a respirao suave de Maggie. Mesmo depois de perceber que ela havia adormecido, continuou acordado, apenas ouvindo o som da respirao compassada.
Quisera tanto poder confort-la! Quisera tom-la nos braos, segur-la contra seu corpo e afastar suas mgoas, e talvez deix-la chorar as lgrimas que sentia estarem ainda prontas a rolar por seu rosto, em um desabafo.
Mas no podia faz-lo. Sabia muito bem que, se o fizesse, estaria passando do limite que se auto-impusera, violando a caixa de Pandora que tanto ele quanto Maggie tinham prometido manter fechada...
Portanto, permaneceu ali, contendo o impulso viril de fazer algo em relao ao que acontecera com Maggie e que a magoara tanto. Ansioso, mas frustrado. Afinal, os homens que a tinham ferido no estavam  disposio para uma vingana e ele no podia torn-la nos braos sem arriscar destruir o acordo que tinham feito. Mas no era um acordo que durava apenas os dois dias que ainda passariam naquele hotel: devia continuar firme pelo resto de suas vidas.


O que ela lhe revelara acabou por assombr-lo durante todo o dia seguinte. Kane decidira que o ltimo dia de sua lua-de-mel com Maggie seria dedicado s compras. Afinal, ela precisava de roupas de gravidez alm de muitas outras coisas, j que se mudara para o apartamento dele.
Quando amanheceu, eles tomaram o caf da manh e saram. Passaram grande parte da manh passeando pelas lojas do lado direito da avenida Michigan, chamada de Magnificent Mile.
Almoaram em um pequeno e aconchegante restaurante e voltaram pelo outro lado da alameda, entrando em todas as butiques e nas muitas lojas de departamentos que ali havia.
Maggie resistia  idia de faz-lo gastar tanto, mas tanto Kane insistiu que despertou nela um gosto especial para escolher aquilo de que mais necessitava. Por fim, Maggie acabou confessando-lhe que jamais se sentira to livre para comprar o que gostava.
Ele apreciava ver o prazer no rosto delicado. E sentia-se aborrecido ao lembrar-se de toda a infelicidade pela qual Maggie passara na vida.
Ela no tocou no assunto de seu passado durante o dia e Kane imaginou que seria melhor assim. Preferia que sua esposa continuasse distrada com as compras, assim poderia ficar livre daquelas lembranas desagradveis.
Tudo o que compraram foi enviado ao apartamento dele e, quando voltaram ao quarto de hotel, no fim da tarde, estavam ambos exaustos. Revezaram-se no uso da banheira, em um longo banho relaxante, mas ambos no deixaram de imaginar como teria sido mais divertido se pudessem t-lo partilhado... Mais tarde, pediram que um lanche leve fosse levado ao quarto e foram dormir cedo, dormindo quase que de imediato.
Um pouco depois da meia-noite, Kane acordou de repente. Pareceu-lhe ter ouvido Maggie chorando. Prestou ateno, e percebeu que ela falava enquanto dormia. Havia poucas palavras que conseguia entender e elas no faziam sentido entre si, mas ela parecia desconfortvel e inquieta e Kane no conseguiu ignorar isso. Levantou-se devagar e foi at ela.
- Maggie - chamou, suavemente, tomando-a pelos ombros e sacudindo-a com delicadeza. - Maggie, voc est bem?
Ela abriu os olhos, mas no parecia v-lo. 
- O qu? - indagou, em voz sonolenta. 
- Estava falando enquanto dormia.
- Oh... - Ela se sentou, passando as mos por entre os cabelos. - No tive um bom sonho...
Kane mal podia v-la na escurido. Queria ficar ao lado dela, confort-la. Sentia ainda o calor da pele macia em suas mos e queria muito abra-la, mas sabia que, se o fizesse, algo mais aconteceria... Assim, achou melhor voltar s poltronas, sentindo uma espcie de n amarrando-o todo por dentro.
Imaginou que Maggie voltasse a dormir, mas ela acabou por sair da cama e vestir o robe.
- Kane, voc se importaria se eu abrisse um pouco as cortinas? - ela perguntou, meiga. - Estou me sentindo to abafada...
- Claro que no... Abra!
Maggie afastou as cortinas da imensa janela, que revelou as luzes noturnas da cidade em um espetculo de tirar o flego.
-  lindo, no? - ela comentou, em um meio-sorriso. Tinha os braos cruzados sobre o peito, como a proteger-se.
- , sim - Kane concordou. Observava-a, atento. - Maggie, voc est bem?
- Estou, estou. - E, voltando-se para ele, explicou: - No sei o que aconteceu... Acho que nossa conversa de ontem  noite trouxe de volta muitas recordaes ruins que eu tinha tentado afastar ultimamente... E acabei sonhando... mas j passou.
Ela sorriu, depois tornou a voltar-se para a janela. Kane adorava v-Ia assim,  luz difusa que vinha de fora. As linhas de seu corpo apareciam de leve sob a camisola e o roupo. Mas podia perceber, pelo modo como ela reagia, que o sonho fora mais intenso do que estava disposta a admitir. Sentia que podia e devia fazer algo para confort-la.
Estendeu as mos e pegou a mo pequena, segurando-a entre as suas.
- Maggie...
Ela deixou que a segurasse, mas manteve-se firme, evitando aproximar-se da poltrona em que Kane estava sentado.
- Venha c - ele chamou, puxando-a de leve. - Vamos, s quero confort-la...  bvio que precisa de algo alm de palavras.
Um tanto relutante, Maggie deixou-se sentar ao lado dele. Kane a fez apoiar-se em seu corpo e passou o queixo sobre seus cabelos, como se ela fosse uma garotinha. E disse, suave:
- Quero apenas que volte a sorrir novamente. 
Maggie ergueu os olhos para os dele e ficou calada durante alguns instantes. Depois suspirou e permitiu-se descansar a cabea no peito de Kane, desfrutando daquele aconchego.
-  sua vez de me contar uma histria - observou, relaxando junto dele.
- Est bem - ele concordou, sentindo o perfume suave que emanava do corpo e dos cabelos de Maggie. Tentava afastar de si a reao que seu corpo queria mostrar de imediato. Pensou por alguns momentos, depois recordou seu passado e pensou em alguma coisa que pudesse dizer para animar Maggie.
Abraava-a com carinho e, lembrando-se de algo, comeou a contar sobre a situao quase cmica que tivera de enfrentar ainda adolescente, ao prometer levar duas garotas ao mesmo baile, dividindo-se entre as duas e no conseguindo satisfazer nenhuma delas.
Maggie riu da situao engraada, o que o animou a continuar, falando agora sobre suas tentativas, ainda muito jovem, de entrar no mundo dos negcios, vendendo doces caseiros para seus amigos. E, quando todas as crianas acabaram por ter catapora ao mesmo tempo, assustou-se, achando que envenenara a todos com algum tipo de vrus que aparecera nos doces. Desta vez, Maggie riu de fato.
- Conte mais - ela pediu, aninhando-se entre seus braos.
Kane tentava ignorar como era bom t-la assim junto a si.
Pensava rpido, afinal no queria que Maggie tivesse oportunidade de se afastar dos seus braos. Lembrou-se de outra situao divertida, quando acabara chegando atrasado em um congresso onde deveria fazer uma palestra. Fizera-a, mas, ao perceber, tarde demais, que entrara na sala errada, j falara sobre comrcio internacional por duas horas para uma audincia de cozinheiros, que estavam no mesmo centro de convenes para uma reunio nacional de quituteiros. 
Maggie riu ainda mais do que antes.
- Foi muito constrangedor - Kane comentou, sem sorrir, o que deixava tudo ainda mais engraado. - Mas os cozinheiros e cozinheiras ali presentes foram muito gentis comigo. At me convidaram a participar da reunio que teriam com o chef principal...
- E quanto aos homens de negcios que o aguardavam na outra sala? - Maggie quis saber, ainda rindo.
- Ah, ficaram esperando...
Os dois riram durante bons minutos e Kane percebeu que agira bem. Precisava manter a ambos assim, alegres, rindo, para evitar sentir o quanto era bom ter o corpo dela, to suave e quente, ali, junto ao seu. Agora que ela estava melhor, iria levantar-se, voltar para a cama e dormiria novamente. E tudo estaria resolvido.
Maggie suspirou. Sua posio estava to confortvel que no queria mover-se. Mas sabia que no podia faz-lo. Ergueu os olhos, encontrando os dele, e murmurou:
- Obrigada.
- De nada. - Kane no tinha mais voz. Percebeu que ela erguia a cabea de leve, na inteno de dar-lhe um beijo no rosto, mas voltou sua cabea e tomou-lhe os lbios nos seus, envolvendo-a por completo em um beijo faminto.
E a chama que havia estado adormecida nos dois, oculta, mas forte, ardeu por inteiro. Seus corpos se aqueceram, adquirindo vida nova, urgente, que pedia por muito mais do que um simples beijo, por mais ardente que ele fosse.
Kane deslizou os lbios pelo pescoo suave que se oferecia, percebendo que Maggie tambm o queria, e muito. Tinha de parar com aquilo, ou seria tarde demais.
- Maggie... - sussurrou, a respirao acelerada. Mas a nica reao dela foi continuar a beij-lo, os olhos cerrados, o corpo suave entregando-se. E Kane soube, ento, que estava perdido.
Fizeram amor ali mesmo, naquelas poltronas to desconfortveis, mas era como se nada houvesse ao seu redor, como se o mundo tivesse parado para contemplar a paixo louca que os possua naquele momento.
Bem mais tarde, quando seus corpos saciados ficaram juntos um do outro, riram muito e conversaram entre sussurros, como dois adolescentes apaixonados que tivessem acabado de fazer algo ousado e estonteantemente delicioso.
Foram, depois, para a cama, onde mais uma vez a chama do desejo os incendiou, para novamente amarem-se em um frenesi de paixo.
Maggie adormeceu pouco depois, mas Kane, no. Ficou acordado, abraando-a, olhando-a, encantado. Ela era to linda e o que tinham vivido h pouco fora maravilhoso. Como nunca antes. Ele adorava olha-la, ver seu corpo de pele macia, seu ventre levemente protuberante, onde a vida de seu filho se desenvolvia... Adorava suas pernas, a curva de seus quadris... Mais uma vez a desejou, mas forou-se a um controle maior.
Precisava acordar daquele sonho incrvel e voltar  realidade. Tinha de retomar seus sentidos e, quando o fez, sentiu-se irritado consigo mesmo e com o que fizera. Acabara de violar suas prprias regras. Pusera tudo a perder por sua atitude impensada, seu desejo cego.
Seu casamento com Maggie deveria permanecer platnico. Precisavam evitar a fantasia do amor. Seu casamento tinha de ser apenas um acordo, no qual os dois saberiam sempre o que esperar um do outro...
Agora, quem poderia saber o que Maggie estaria esperando dele?, indagou-se. Ele nem mesmo sabia o que esperava dela! Poderia ter acabado com algo que tinha tudo para ser maravilhoso e dar certo...
No entanto, poderia no ser tarde demais, consolou-se. Tinha de recuar. Era muito arriscado lanar-se cegamente  paixo. O que lhe parecera to bom a princpio, poderia vir a se estragar. Vivera uma experincia assim e no queria que a mesma coisa contaminasse seu relacionamento com Maggie. Ela, precisava dele forte e ele a precisava sbia. E isso significava que deviam voltar ao que era antes. Tinha de ser assim.









CAPTULO IX

- Maggie, detesto incomod-la bem no dia em que est retornando ao trabalho, mas a maioria das garotas est realmente preocupada com os rumores que andam circulando pela empresa.  A voz de Jen estava, de fato, muito tensa.
- E que boatos so esses?
- Dizem que a creche no vai mais ser construda. Acha que pode conversar com Kane e descobrir o que est havendo?
-  claro...  Maggie concordou, sem hesitar.  E vou fazer isso agora mesmo. Torno a falar com voc quando souber de algo, est bem?
Ela recolocou o fone no gancho e meneou a cabea, pensativa. Como podia ter se esquecido desse assunto?, indagava-se.
Era seu interesse tambm saber sobre a creche. No entanto, hesitava. Kane estava em sua sala e seria muito simples entrar l e perguntar-lhe; afinal, a implantao da creche tambm era de seu interesse. Mas alguma coisa parecia avis-la de que sua indagao no seria bem recebida.
Tinha voltado ao trabalho naquela manh e encontrado o escritrio mergulhado em uma confuso de documentos para serem assinados e clientes com problemas urgentes a serem resolvidos. E ainda estavam ocupados tentando encontrar solues para tudo com o profissionalismo de sempre. Quem os visse trabalhando e no os conhecesse jamais diria que chegavam de uma viagem de lua-de-mel.
Maggie e Kane concentraram-se nos casos mais complicados com a dedicao costumeira, e o dia acabou passando sem que eles sequer notassem.
J estavam no final do expediente quando Maggie percebeu que no tinham tido tempo para trocar mais do que algumas poucas palavras.
Ela fez uma pausa e fechou os olhos, sonhadora, relembrando a magia do final de semana.
Naquela manh, ao acordar no hotel, a nica coisa em que Maggie pudera pensar fora no amor que tinha vivido com Kane. Nunca se sentira to bem como quando estivera envolvida no calor do braos dele.
Estava completamente apaixonada. Seus medos e apreenses no mais existiam. Havia uma nova esperana em sua vida e tudo parecia melhorar a cada instante.
Kane estava ainda no chuveiro quando Maggie acordara. Ela esperara por algum tempo, depois lembrara-se de que tinha seu prprio banheiro na sute. Fora at l e tomara uma ducha longa e reconfortante. Depois, como estivesse ficando tarde, tiveram de sair s pressas do hotel, pois Kane tinha uma conferncia logo cedo, agendada semanas antes.
Na correria, Kane lhe parecera distante. No houvera mais intimidade entre eles. Mas Maggie compreendia que era ainda necessrio algum tempo para que ambos se acostumassem a sua nova vida de casados. Muito mais nova depois que tinham descoberto a paixo. Era natural que houvesse altos e baixos e ela saberia esperar. A alegria da noite que tinham passado juntos a manteria segura.
Entretanto, agora que o problema sobre a creche se apresentara, ela sentia que havia certa relutncia de sua parte em conversar com Kane. No entendia bem por que se sentia assim, mas procurava fazer outros pequenos servios pelo escritrio, evitando falar com ele.
Ficou algum tempo assim, imaginando o que poderia estar acontecendo consigo mesma, at que decidiu deixar de lado os receios e dirigiu-se diretamente  sala de Kane.
Bateu primeiro  porta e entrou em seguida, vendo-o inclinado sobre alguns papis em sua mesa. Ele ergueu a cabea e sua expresso era tensa, como se alguma coisa no estivesse seguindo como planejara.
- Kane, algumas pessoas esto me perguntando sobre a creche - Maggie comunicou, aproximando-se da escrivaninha.
- O que h com a creche? - ele perguntou, um tanto rspido. Sua ateno ainda estava no que lia. 
Ela piscou vrias vezes, surpresa com aquele tom de voz.
- Esto dizendo que ela talvez no seja feita... 
No havia irritao nos traos de Kane, mas tambm no havia simpatia.
- No se preocupe, vou cuidar disso - declarou, como se a estivesse dispensando. - D-me algum tempo, sim? S h problemas por aqui hoje!
Maggie sabia que havia problemas. Houvera um pequeno incndio em um depsito da firma, e Coldair, um cliente importante, estava furioso quanto a algumas contas, e ameaava mudar de fornecedor.
- Sinto muito - ela se desculpou, voltando  porta. - Sei que est ocupado, mas... se eu pudesse assegurar a todos que voc est trabalhando no assunto...
- Maggie, j disse para deixar qualquer assunto relacionado  creche comigo... Est bem?
Maggie calou-se. Kane jamais lhe falara assim. Era bvio que, fosse o que fosse que estava dando errado com a creche, ele se mostrava aborrecido a respeito, tendo ainda os outros problemas para solucionar.
- Est bem - murmurou, voltando a sua sala sem mais palavras.
- Maggie, espere - ouviu-o chamar, antes de fechar a porta atrs de si. Voltou-se, j sorrindo, certa de que ele iria se desculpar.
Mas, uma vez mais, desapontou-se.
Kane remexeu nos papis sobre sua mesa e reclamou: 
- Sabe que Coldair est nos dando muitos problemas, no? E como ele  um dos nossos clientes mais importantes, preciso cuidar desse caso pessoalmente. Por isso, vou ter de deixar a cidade por alguns dias. 
Mesmo contrariada, Maggie compreendia. Em determinadas situaes era necessrio adotar medidas extremas... E, naquele momento enfrentavam um problema que normalmente no acontecia na empresa. Portanto, era natural que Kane quisesse resolv-lo pessoalmente. Podia no ser a soluo mais agradvel, mas era a mais correta. Era o mundo dos negcios e estava acostumada a ele.
Kane estava com o cenho franzido, expressando todo seu aborrecimento.
Depois de um tempo, que para Maggie pareceu uma eternidade, ele encarou-a.
- Sinto ter que fazer isto exatamente quando est se mudando para meu apartamento. Liguei para Mark e combinamos que ele vai ajud-la com suas coisas.
Em seguida, Kane levantou-se e aproximou-se de Maggie. Quando estavam frente a frente ele segurou-a pelos ombros e beijou-a de leve na testa.
Quando voltou a falar, Maggie perdeu o fio de esperana que ainda conservava de poder falar com o marido fora do escritrio.
- J tenho minha valise de emergncia preparada, portanto no precisarei voltar para casa. Vou pegar o primeiro avio para Pittsburgh. Sinto muito mais uma vez.
Maggie assentiu, compreensiva. No entanto, sentia algo diferente nele, uma espcie de frieza que no conhecia... Naquela noite, jantou sozinha na cobertura, depois vagou pelo apartamento, querendo no se sentir to sozinha.
Como no tinha nada com que se ocupar, resolveu fazer um tour pela ampla cobertura. Em cada cmodo que entrava e via a maneira como estava decorado, concluiu que tinha sido um profissional quem cuidara de tudo ali. E a sensao de que fazia parte de uma fotografia de revista especializada em decorao se acentuava cada vez mais. Na verdade, duvidava que Kane tivesse passado ali mais do que algumas horas de sono.
Escolheu um quarto para dormir, no querendo presumir que devesse ficar na cama de Kane. Havia quatro dormitrios e imaginou que poderia ficar em um diferente do outro em cada noite que estivesse sozinha ali. Mas no havia nada de engraado nessa possibilidade, avaliou, entristecida. No achava que alguma coisa pudesse ter graa enquanto Kane estivesse fora.
Mark apareceu na tarde seguinte e a levou at seu antigo apartamento para que pegasse o que ainda havia por l. Ele estava muito falante e parecia feliz por seu irmo ter se casado com Maggie.
- Sabe que se casou com um grande sujeito, no? - comentou, enquanto voltavam para a cobertura. 
- , eu sei. - Maggie sorriu, pensando em Kane. - Afinal, trabalho com ele h mais de dois anos. 
-  verdade. Mas eu o conheo h muito mais tempo. E pode acreditar no que lhe digo: meu irmo  timo. Ele  um grande homem de negcios. Sua empresa tem grande credibilidade no mercado. E isso se deve em grande parte  sua habilidade. s vezes, no  muito prtico, devo admitir... Tem o corao mole demais, e isso s se torna perceptvel nos momentos em que ele precisa ser mais rgido.
Maggie voltou-se no banco.
- De que maneira?  indagou.
- Veja essa creche que pretende construir na firma, por exemplo... No h como levar esse projeto adiante. Kane j est com problemas demais! Vo ter que parar a construo, sabia?
- No acredito! Por qu?!
- Pelo que sei, o advogado da firma disse que seria muita responsabilidade ter uma creche como a que Kane quer. Podem acontecer muitos problemas. Ouvi dizer, at, que pode haver ameaas de processo contra Kane. Por exemplo, se alguma criana se ferir, ou se ingerir um alimento ao qual seja alrgica, ou, ainda, se algum achar que as atendentes da creche do mais ateno a outras crianas do que a seu filho... Coisas assim.
- Mas  to complicado assim? Normalmente, uma creche junto ao local de trabalho significa tranqilidade e segurana para as mes, que conseguem desenvolver seu trabalho com mais eficincia - Maggie aparteou.
- Sempre h gente achando que h um bom motivo para greves, tambm. E essas pessoas acabam arruinando um bom projeto para todos os outros que se beneficiariam dele - Mark explicou.
- Meu Deus, mas em que mundo estamos? - Maggie espantou-se. - Como podemos ter alguma coisa boa se sempre existe a possibilidade de que algum v tentar minar tudo?
- Tempos modernos, minha querida...  um problema, de fato.
J tinham chegado ao prdio de Kane e Mark estacionou na vaga da garagem, desligando o motor. 
- Mas o que Kane pode fazer a respeito? - continuou. - Essa histria de responsabilidade patronal  complicada, sabia? No pode arriscar sua empresa por causa de uma creche.
- , no pode... - Maggie concordou, entristecida, embora estivesse pensando, tentando encontrar uma soluo para o problema.
A situao era deprimente. Ela sabia que muitas mulheres da firma dependiam daquele empreendimento e que estavam planejando muitas coisas em suas vidas para depois que a creche estivesse funcionando.
Jen chegou a ligar novamente, querendo saber novidades. Mas Maggie decidiu no contar a suas amigas o que o cunhado lhe dissera. Seria melhor esperar e falar diretamente com Kane. 
Nesse meio-tempo, a espera por ele tornava-se cada dia mais difcil. Sentia muito sua falta. Ele ligava todas as noites, para saber o que tinha acontecido no escritrio, sempre parecendo apressado e exausto.
Na terceira noite que estava no apartamento, Kane tornou a telefonar. Dessa vez, as notcias no eram to boas... Ele teria de seguir at a Flrida, onde havia mais problemas que precisavam da sua interferncia direta e, como deveria participar de uma conferncia em Fort Lauderdale, na semana seguinte, estava planejando ficar por l at que tudo terminasse.
Isso significava que Maggie ficaria sem v-lo por mais uma semana.
- Bem, mas tenho sorte - disse ele, tentando parecer animado. - Sei que posso confiar em voc, que tudo ficar bem na firma porque voc  competente e sabe o que faz. No fosse por voc, Maggie, eu j  estaria desesperado.
As palavras eram gentis, mas no suficientes para suprir a falta que ela sentia de sua presena. 
Maggie engoliu a tristeza e fingiu estar animada tambm. No queria atrapalh-lo ainda mais, embora o quisesse de volta o quanto antes para seguirem construindo seu relacionamento. E, como em todas as noites, ao se deitar, ela se deixava levar pelas lembranas da nica noite de amor que tivera com Kane, e pela esperana de poder repeti-la mais vezes...


Aquela semana arrastou-se. Maggie ia de casa para o trabalho como um autmato. Uma vez na empresa, trabalhava com afinco, pois assim no sentia o tempo passar.
Ento o dia to esperado chegou, o dia do retorno de Kane. Ele havia telefonado e avisado que iria direto para o escritrio.
Maggie vestiu-se com esmero e foi para o trabalho, aguardando ansiosa a chegada do marido.
O barulho das portas do elevador abrindo-se naquele andar a fez erguer a cabea e ver o belo homem com quem se casara, vindo apressado em direo ao escritrio. Ela largou a caneta e levantou-se, na inteno de cumpriment-lo.
- Seja bem-vindo, estranho! - cumprimentou-o, sorrindo, radiante.
- Maggie - ele ergueu de leve os braos, fazendo-a deter-se, mas havia um brilho intenso de afeio em seus olhos.
Maggie ergueu o rosto, para receber um beijo que lhe pareceu frio e, pior ainda, distante. Kane seguiu depressa para seu escritrio, deixando-a surpresa e frustrada. No havia mais como negar. Kane estava diferente, afastando-a de propsito.
Passaram-se algumas horas at que ela se conscientizasse de fato do que estava acontecendo. E decidiu esperar at que estivessem em casa para tocar no assunto com Kane, pois ali eles eram somente patro e empregada. No queria mais ignorar o que se passava, como fizera muitas vezes no passado.
Queria conversar francamente com ele e saber se, e por que, ele havia mudado de idia, se estava arrependido por terem se casado. Tudo bem que essa idia a feria demais, mas era uma possibilidade, e Maggie havia se prometido que nunca mais em sua vida iria ignorar nenhuma dvida que tivesse.
Esperou at depois do jantar para conversarem. Fizera uma bela travessa de macarronada com molho de tomate e carne e agora Kane parecia animado. Talvez, imaginou ela, tivesse interpretado mal o jeito dele. Mesmo assim, queria conversar e esclarecer tudo.
Kane falou sobre sua viagem, perguntou sobre tudo no escritrio, sorriu, falou sobre a gravidez de Maggie, mas no a tocou. E evitou olh-la diretamente o tempo todo.
O pior momento foi quando ela lhe mostrou o quarto em que escolhera ficar e ele aprovou sua escolha, sem indagar por que ela no quisera partilhar seu leito...
Maggie teria adorado ouvir tais palavras. Mas elas no vieram, apenas confirmando seus temores. Kane no a queria em sua cama e isso doa demais.
Aps o jantar, sentaram-se na sala confortvel. O ambiente era aconchegante, e enquanto ouviam um bom disco de jazz e falavam sobre mais alguns assuntos do escritrio, ele sentiu que sua inteno de conversar com o marido se enfraquecia.
S bem mais tarde Maggie conseguiu endurecer-se o suficiente para falar sobre o que mais lhe interessava: 
- Kane, est arrependido pelo que fizemos?
Ele pareceu surpreso no primeiro instante, depois pensou um pouco e respondeu:
- Sobre nosso casamento?
- Sim.
- No, claro que no. Por que pergunta?
- Porque voc parece estar me mantendo afastada. Eu acho, at, que me evita, s vezes.
- Isso  ridculo, Maggie! Sabe muito bem o que sinto.
- No, eu no sei, mas gostaria que me dissesse. 
Ele guardou silncio por longos e pesados momentos, os olhos presos ao fogo que crepitava na lareira. O que Maggie poderia estar querendo?, ponderava. Estava tentando manter o equilbrio que ambos haviam planejado para que houvesse estabilidade em seu casamento e agora percebia que sua atitude no estava sendo bem-aceita.
Maggie no entendia como lhe era difcil ficar afastado de seus braos? Tinham feito um acordo, entendido que seria sempre melhor se o relacionamento deles ficasse no plano platnico! Assim, no teriam de lidar com complicaes, com os altos e baixos da vida em comum...
Mas, com certeza, sentia falta dos momentos felizes que poderia viver com ela. Aquela noite, no hotel... Seu corpo chegava a doer ao se lembrar. Estar perto de Maggie era uma mistura de doce tentao e estranha tortura.
Esperava que a intensidade do que sentia diminusse com o tempo e, assim, pudessem viver com tranqilidade. Mas Maggie queria saber como ele se sentia naquele exato momento!
E como se sentia? Amava-a? No pensava muito no amor. Devia am-la, sim, de alguma forma. Mas j amara Crystal e o amor no importara muito ento. O amor no fazia com que as coisas ruins deixassem de acontecer.
Por alguns dias, vislumbrara um futuro possvel que parecia bom demais para ser verdade. E no ousava contar com ele. No havia como contar com nada quan do havia pessoas envolvidas. Sabia apenas que devia proteger-se e ater-se s coisas de que podia depender: trabalho e dinheiro. Nada mais.
Olhou-a nos olhos, sabendo que Maggie aguardava sua resposta.
- Fizemos um trato, lembra-se? - observou. - Isso nada mais  do que um acordo de negcios... 
Algo no tom de voz de Kane a chocava.
- Mas achei que... depois daquela noite no hotel... 
- Foi um erro, Maggie. O que no destri nosso acordo,  claro. Mas acho que seremos mais felizes se continuarmos com o que havamos planejado. No acha tambm.
Maggie no entendia. Ficou calada por um longo tempo, depois pediu licena e retirou-se para seu quarto. Deitou-se e apagou a luz do abajur, embora soubesse que no conseguiria dormir. Era apenas um acordo, nada mais do que isso. No havia amor. Nunca haveria.
Pensou muito a respeito e concluiu que Kane devia estar com a razo. Tinham feito um trato e deviam respeit-lo. Muito embora tivesse se apaixonado perdidamente por Kane. Ele mesmo dissera que as mulheres costumam levar esse tipo de coisa mais a srio do que os homens... Talvez tivesse sido feminina demais, tola demais.
Precisava ser mais forte. Precisava sobreviver. Pararia de pedir a Kane coisas que ele no podia lhe dar. Se tinha de ser assim, que fosse. Mas... como seria para seu filho?
Passou as mos pelo ventre, sentindo a criana mexer, e sorriu, apesar de tudo. O beb era o centro de toda aquela situao. Precisava continuar vivendo dia aps dia, deixando o tempo passar e as coisas se ajeitarem por si s...
E tambm precisava secar as lgrimas que rolavam por seu rosto, doloridas. No queria chorar. No iria chorar. Iria apenas concentrar-se em seu filho e deixar que o resto do mundo seguisse seu rumo.


Jill soube que havia algo de errado assim que entrou no escritrio. Viera buscar Maggie para o almoo e, depois de dois hambrgueres, um prato de batatas fritas e muito refrigerante, pediu torta de cereja para as duas, e pediu a Maggie que lhe contasse o que estava acontecendo.
- E no me responda que tudo est bem porque sei que no est! - imps. - Posso ver em seus olhos que h tristeza a dentro.
- ... algo muito tolo, Jill.
- No, no . Voc est apaixonada por Kane, no? 
Maggie mordeu o lbio inferior, brincando com o guardanapo de papel.
- Estou - confessou, suave. 
- Ah, essa bobagem de casamento moderno e platnico! - Jill comentou, aceitando a torta que a garonete colocava  sua frente.
- Ele no me ama - Maggie queixou-se.
-  mesmo? - Havia ironia no tom de voz de Jill. 
- . E ele deixou isso bem claro. Disse que precisamos manter nosso relacionamento como combinamos: um acordo, nada mais.
- Sabe, acho que nada est claro na cabea de Kane, no momento. Ele anda meio louco desde que soube que ia ser pai. - Jill limpou os lbios, bebeu um gole de refrigerante e perguntou, muito sria: - Ele j lhe falou sobre o pai?
- No. Kane no gosta de falar no passado.
- Ento, vou ter de dizer-lhe isso tambm. Sabe, Kane adorava o pai. Havia uma ligao forte entre ambos, porque o velho costumava beber demais e Kane se sentia um tanto... protetor em relao a ele. Ento, seu pai morreu em um acidente. Estava bbado,  claro. E Kane sentiu-se abandonado. Nunca superou a perda, eu acho. A me de Mark contou tudo a ele quando ainda era adolescente, explicando que era pela falta do pai que Kane s vezes ficava de mau humor e magoava Mark com palavras. Kane ainda no superou a morte do pai.
-Bem, isso tudo  muito triste, mas no vejo relao com...
- No v como isso tudo provoca uma ligao muito forte entre Kane e o beb que est esperando?
- Sim, mas...
- No v que ele tem medo de se ligar a voc por medo de perd-la tambm?
Maggie pensou por instantes, depois negou com um gesto de cabea e comentou:
- Na verdade, no.
- Ento, pense a respeito. Vai entender. Mas no desista de Kane. Ele vale todo o esforo que fizer para mant-lo, sabe?
Maggie tinha certeza disso, mas no sabia como devia se esforar para ficar com ele. Tinham se casado por causa da criana que carregava. Ela era apenas o meio que ele tinha para atingir um determinado fim. Como agir, ento?
E a resposta apareceu em sua mente, afinal: Kane no a amava como ela o amava. E talvez nunca viesse a am-la. E, assustada, no conseguiu imaginar se seria capaz de suportar essa dura realidade pelo resto da vida. Mas estavam to atarefados no escritrio que ela mal tinha tempo para pensar em seus prprios problemas. E, apesar de tudo, o relacionamento que tinha com Kane era sempre amigvel.
Muitas mulheres poderiam estar felizes com o que viviam juntos, mas Maggie sentia falta de carinho, que ela achou fosse possvel depois daquela maravilhosa noite no hotel. s vezes, ela chegava a imaginar que aquela noite nunca existira de fato, que fora apenas um sonho bom...


O assunto da creche ainda no se resolvera. Maggie verificara nos arquivos da firma e Mark parecia ter razo. Os advogados da firma tinham recomendado que a creche no fosse construda. Seria muito arriscado em um mercado to competitivo, com tantos problemas normais de qualquer empresa. No havia por que colocar em risco mais um aspecto da companhia.
Era bvio que a Kale Haley e Associados vinha em primeiro lugar. Sem ela, no haveria empregos para as mes das crianas que precisavam da creche e a situao seria bem pior. Assim, Maggie no se sentia firme o suficiente para discutir o assunto com Kane. Mas desejava, do fundo do corao, que alguma coisa pudesse ser feita.
Jen e Sharon a procuraram, certo dia, querendo uma resposta definitiva sobre o que estava havendo.
- As coisas no parecem muito boas - Maggie informou, com pesar no corao. E explicou brevemente a opinio dos advogados sobre a creche.
- Ah, mas isso  to injusto! - Sharon comentou, amuada. - No pode falar com Kane e ver se seria possvel encontrar uma soluo plausvel?
Maggie sentia que devia defender o marido diante das colegas, mas no podia contar-lhes que sua influncia, agora que era esposa, no era maior do que quando era apenas uma assistente.


Pouco tempo depois, no fim de maro, dois homens apareceram no escritrio, com roupas de trabalho, parecendo perdidos.
- Posso ajud-los? - Maggie se prontificou.
- Sim, senhora, obrigado - disse um deles. - Somos da Construtora Branart e estamos procurando o local da creche.
- Creche?
- Sim, mas acho que estamos no andar errado. - E o homem mostrou-lhe uma planta desenhada  mo, do prdio.
- , de fato esto no andar errado. Mas por que esto procurando pelo local da creche?
- Estamos preparando as inovaes que foram pedidas para ampliar o espao. Precisamos tirar as medidas e comear a fazer o planejamento final. Estamos com pressa porque a inaugurao ser no final de junho.
- , queremos comear logo - interferiu o outro trabalhador. 
- Deve haver algum engano - Maggie comentou, mais para si mesma do que para os homens. Mas verificou os papis que os homens lhe mostraram, vendo que a data era de apenas dois dias antes.
Conduziu os homens at o elevador e disse-lhes em qual andar deveriam descer, e depois voltou apresada para sua sala. Atravessou-a e, sem bater, entrou na de Kane, que estava ao telefone.
Maggie no esperou que ele desligasse: 
- O que est havendo com a creche?
Kane no respondeu de pronto, mas pediu  pessoa que estava do outro lado da linha que aguardasse sua ligao, desligando em seguida. Ento recostou-se  cadeira e sorriu de um modo que no fazia h semanas.
- Por que quer saber? - perguntou, com ar de suspense.
- No vai me dizer? Pensei que havia problemas! 
- E h. Sempre h.
- Mas...
Kane levantou-se. Seus olhos brilhavam, enquanto ele se divertia com a agitao de Maggie.
- Achou mesmo que eu ia deix-los tirarem nossa creche? - perguntou, vindo em sua direo. - Acha que eu deixaria minhas funcionrias decepcionadas comigo?
- Mas a firma... Poderia perd-la, caso... Pelo menos,  o que os advogados disseram.
- Se algum tentar fechar nossas portas, vamos lutar! Olhe, Maggie, no cheguei onde estou sentindo medo do futuro ou de ameaas de qualquer tipo. Quando algo  importante para mim, vou atrs!
Ele ia manter a creche! Ia lutar por ela! E nunca parecera to belo e poderoso como naquele momento, aos olhos de Maggie.
- Oh, Kane! - Ela passou os braos por seu pescoo e abraou-o.
- Ei, vai amassar meu terno! - ele protestou, em uma brincadeira. Ento abraou-a tambm e, olhando-a, deixou que todo o desejo que reprimira ultimamente fosse libertado.
O beijo que trocaram foi intenso, profundo, carregado de saudade e de promessas. O mundo pareceu parar de girar e nada mais teve importncia porque estavam juntos, partilhando uma sensao indescritvel de prazer e cumplicidade. 
As vozes que comearam a surgir na outra sala finalmente penetraram seus crebros, chamando-os de volta  realidade. Logo, havia vrias pessoas no escritrio, falando muito, gesticulando, rindo, e trazendo um problema para Kane resolver.
Maggie no ficou pra saber de que se tratava. Voltou para sua sala, levando consigo a certeza de que Kane a queria. Pelo menos, isso.
A partir daquele momento j sabia o que fazer. Kane Haley iria conhecer uma nova faceta da esposa.
O sorriso que tinha no rosto mostrava que iria ser bem interessante...




























CAPTULO X

Devido  oscilao de humor, Maggie abandonou seus planos por algum tempo. Tentava distrair-se com o trabalho, mas gradativamente voltou a pensar no assunto. Precisava agir, no podia sentir medo quela altura dos acontecimentos. E, pensando melhor no assunto, acabou culpando a gravidez por isso. Imaginou que seus hormnios estivessem embaralhando seus pensamentos, mas agora que se sentia melhor, sabia exatamente o que fazer.
Sabia que no se podia deixar levar por experincias passadas... No fundo, tinha certeza de que era inerente  personalidade masculina querer comandar tudo, mas no queria ser tratada como se no fosse dona de suas vontades. Nunca conseguira enfrentar o pai ou o primeiro marido, mas era uma mulher diferente agora e conseguiria manter-se firme.
Certa noite, juntou-se a Kane, enquanto ele lia o jornal, no terrao. Era um comeo de noite tranqilo, com uma leve brisa soprando do norte. Ficaram ali, apreciando a noite que chegava, em silncio, por algum tempo.
Maggie cerrou os olhos, tentando encontrar foras. Afinal, sabia o que estava arriscando ao confrontar Kane. Ele podia simplesmente no se importar e tudo estaria acabado. Mas precisava fazer essa tentativa. 
- Kane, quero quebrar nosso acordo - disse, por fim.
Ele ergueu, lentamente, os olhos por sobre o jornal. 
- Mas... do que est falando?  estranhou.
-J quebrei os termos do que tnhamos combinado e tudo est sem propsito agora. As coisas mudaram entre ns.
- Nada mudou...
- Mudou, sim. Concordamos em termos um casamento sem amor e eu... acabei me apaixonando por voc.
A princpio, Maggie temeu no conseguir pronunciar tais palavras, mas, agora que as dissera, estava aliviada.
Kane, no entanto, estava quieto. E a olhava como se tivesse visto um fantasma. No falava, no sorria, no fazia nada.
- Como v, vamos ter que recomear de um modo diferente - comentou, perturbada com o silncio dele. 
- Maggie, j conversamos sobre isso - Kane observou pouco depois, mas seu rosto continuava sem expresso. - E concordamos que seria muito melhor deixarmos os sentimentos fora de nosso casamento.
-  fcil falar, mas difcil de fazer.
- Eu sei... - Kane a olhava intensamente.
Sabia bem o que Maggie queria, mas no podia ceder... Mesmo querendo muito. Ainda assim, queria fazer algo que lhe mostrasse o que sentia. Ento props:
- Olhe, vamos fazer o seguinte: vou abrir dois cartes de crdito em seu nome e...
Maggie negou com um gesto enrgico de cabea e interrompeu-o, furiosa:
- O qu?! Acha que quero seu dinheiro?! No sou como Crystal! No pode me comprar e devia saber disso!
- No, Maggie, minha inteno no foi... 
- Acha que estou tentando manipular a situao para arrancar dinheiro de voc?! Pois saiba que eu o estou pressionando, sim, mas no por seu dinheiro! O que quero  seu corao, Kane!!
Agora que comeara e que se sentia firme o suficiente para falar tudo que queria, Maggie prosseguiu, sem vacilar:
- Eu amo voc! E, se no me amar tambm, nosso acordo est terminado! No quero viver deste jeito! Vou embora assim que o beb nascer! Prometo ficar por perto, para que possa v-lo e me ajudar a cri-lo, mesmo porque esta criana vai precisar do pai, mas no pretendo viver sob o mesmo teto que voc!
Maggie levantou-se e entrou na sala, pedindo a Deus que o marido a chamasse, ou a alcanasse, mas ele no teve reao nenhuma.
Depois de ouvir a exploso de Maggie, Kane limitou-se a ficar observando-a, paralisado, sem voz, sentindo como se estivesse presenciando a cena em um filme que j vira antes. Parte de si queria correr atrs dela e dizer-lhe o que sentia, mas parte o segurava, frio e sem vida como uma pedra.


A partir daquela conversa, Maggie determinou-se a cuidar somente do beb e do trabalho. No que se referia  vida pessoal deles, as coisas seguiam como se nada tivesse acontecido. Parecia at que aquela fatdica conversa nunca havia existido.
As amigas de Maggie, da empresa, estavam preparando um ch-de-beb para ela. Ela ligara para uma clnica especializada para comear a fazer um curso de pr-natal.
Era difcil acreditar que oito semanas j se tinham passado desde o casamento. Maggie estava grvida de sete meses e meio, j. O beb chutava-a sem parar e parecia ter sua prpria personalidade.
Kane a ajudara a escolher um dos quartos para a criana e tinham-no decorado ao gosto dela, com animaizinhos de pelcia e papel de parede com ursinhos e nuvens. Para quem observasse de fora, tudo parecia absolutamente normal.
Aquele era um dia estranho para o ms de abril. A primavera dava seus primeiros sinais, enfeitando as ruas com o verde exuberante das folhas e o colorido . das flores, mas Maggie no conseguia ver nada disso. Desde que acordara, sentia uma apreenso que no conseguia explicar.
- Coma alguma coisa - Sissi ofereceu quando ela entrou no refeitrio, naquela tarde. Outras mulheres faziam o mesmo.
No entanto, a simples meno de comida fez com que Maggie sentisse um enjo repentino. Agradeceu e saiu para o corredor, dando alguns passos, na esperana de sentir-se melhor.
Uma tontura fez com que Maggie se apoiasse  parede, enquanto caminhava rumo ao toalete feminino. Uma sensao de medo a tomou de repente e, quando fechou a porta atrs de si, viu o sangue.
Sharon estava l, diante do espelho e, assim que percebeu sua chegada, comeou a falar:
- Estamos planejando uma grande festa para a inaugurao da creche!
Mas Maggie no a ouvia. A nica coisa que sentia naquele momento era medo. Medo de que algo acontecesse com o seu beb. Sentia-se incapaz de fazer qualquer coisa para proteg-lo. Lembrou-se de Kane, da sua fora, da segurana que sentia junto a ele... Apoiada  parede, pediu, quase sem voz:
- Por favor, Sharon, mande chamar Kane. No estou me sentindo bem. Algo de muito errado est acontecendo com o beb...
Sharon voltou-se, assustada e, sem uma palavra, saiu em busca de ajuda.
Depois que a amiga saiu, Maggie no conseguiu mais ter uma noo exata dos acontecimentos. Ouviu sirenes, a voz preocupada de Kane, as vozes dos enfermeiros quando deu entrada ao hospital.
Quando voltou a si, estava em uma cama, com aparelhos amarrados a seu corpo monitorando suas reaes. Levou a mo esquerda ao ventre, temerosa, mas sentiu-se aliviada quando percebeu que ainda estava com seu beb ali. Sua outra mo estava amarrada  beirada da cama e havia um tubo de soro atado a ela.
Foi ento que viu Kane, inclinando-se sobre seu rosto. A expresso dele era de pura preocupao. Maggie sorriu-lhe de leve, em uma tentativa de dizer-lhe que estava tudo bem, mas nem ela mesma tinha certeza disso.
- Maggie, esto fazendo tudo que  possvel para que o beb no nasa por enquanto - informou ele. - Mas no se preocupe com ele, seus sinais vitais esto bons.
Ela assentiu e cerrou os olhos, mergulhando em um sono profundo e imediato. Kane voltou a sentar-se na cadeira onde passara as ltimas vinte e quatro horas. Estava consciente de que no sairia dali enquanto no tivesse certeza absoluta de que tudo estava bem.
Quando Maggie tornou a acordar, ouviu vozes. Pde compreender que falavam sobre perigo, mas no conseguiu manter-se acordada para ouvir o resto.
A voz de Jill estava prxima, e Maggie sorriu ao ouvi-la.
Kane percebeu que ela divagava entre a realidade e a inconscincia, e aproximou-se.
- Como voc est? - perguntou, junto a seu ouvido. 
- Bem... Kane, no sei o que est acontecendo, mas quero que saiba que, haja o que houver, nosso beb ficar com voc sempre. Jamais tentarei afast-lo... Mesmo que nunca me ame...
Kane beijou-lhe de leve a fronte e, olhando para a cunhada, estranhou:
- De onde ela tirou a idia de que eu nunca a amaria?
Jill ergueu os ombros.
- No sei - respondeu. - Talvez quando passou a trat-la como a assistente, em vez de esposa... 
Ele olhou-a, irritado.
- Isso  ridculo!
- Kane, acorde... Voc diz ser um homem to esperto e, no entanto, parece cego! No v que o que faz para se proteger de ser ferido vai exatamente lev-lo a se ferir outra vez?
- No sei do que est falando.
- Sabe, sim. E sei que vai fazer algo a respeito. Bem, vejo voc amanh. Ligue, se alguma coisa acontecer. 
Ele assentiu, tornando a sentar-se e olhando para Maggie quase com desespero.
Jill sabia como ser irritante, s vezes, pensou. Mas ela, quase sempre, tinha razo. Tinha se comportado como um tolo at agora. Ainda mais porque ali, ao lado de Maggie, tinha absoluta certeza de que a amava perdidamente.


Maggie acordou e viu a sorridente enfermeira com a bandeja prxima  cama.
- Acordou? Que maravilha! - exclamou ela, bem-humorada. - Bem na hora do lanchinho!
Maggie franziu a testa, totalmente sem fome, mas percebeu que a moa brincava, colocando um novo tubo de glicose na ponta da agulha que entrava por seu brao.
- Viu, no  gostoso? - continuou a enfermeira, tentando descontra-la. - Olhe, mocinha, vou lhe dizer uma coisa: este andar inteiro s fala em seu marido. Que devoo a dele! No saiu dessa cadeira nem por um instante!
Como se soubesse que estavam falando dele, Kane apareceu e espiou pela fresta da porta entreaberta. 
- Viu? - comentou a enfermeira, como para confirmar o que acabara de dizer.
- Maggie... - murmurou ele, aproximando-se. - Queria tanto que no tivesse que passar por tudo isto... 
- Vai ter valido a pena se o beb vier bem - ela respondeu, tentando sorrir.
- Est acordada o suficiente para entender se eu explicar o que os mdicos pretendem fazer?
Ela assentiu.
- Vo ter que oper-la pela manh. Uma cesariana, porque seu organismo no est conseguindo segurar essa gravidez at o final.
- Mas ainda  cedo...
- Eu sei, mas no h outra alternativa. Haver um grande risco se esperarmos. - Ele tomou-lhe a mo e beijou-a com carinho. - Vai dar tudo certo, voc vai ver. Estamos juntos nisso, lembra-se?
Maggie pensou por instantes, avaliando a gravidade da situao. Ento assentiu, e depois murmurou:
- Ainda no pensamos em um nome para o beb... 
- Que nome gostaria de dar a ele? - Kane perguntou, solcito.
- O nome do seu pai.
Kane engoliu em seco.
- Benjamin? - ele perguntou, com a voz embargada pela emoo.
- Exatamente.
- Ento, est bem. - Kane no entendia por que ela fizera isso. Era como se um crculo estivesse completo em sua vida, e seu corao se alegrava por isso. Maggie no poderia ter feito algo melhor por ele. Como poderia no am-la?


Estava tenso demais na manh seguinte. Esperava fora do quarto, enquanto Maggie estava sendo preparada para a cirurgia. Sentia-se ansioso e irritado. Quando, por fim, deram-lhe permisso para entrar, foi direto a Maggie e segurou-lhe as mos com ternura.
- A enfermeira disse que vou dormir de novo - murmurou ela, sorrindo. - Que novidade... Desde que entrei aqui, no fao outra coisa...
- Mas, desta vez, quando acordar, j vamos ter nosso beb conosco.
Maggie assentiu, mas estava preocupada.
- Preciso dizer-lhe uma coisa, antes que a levem. - Kane aproximou-se mais, querendo muito poder abra-la. - Eu a amo. Demais!
Houve alguns segundos de silncio, nos quais os olhos dela brilharam de emoo.
- Jura? - sussurrou. - Ou est me dizendo isso porque quer que eu me sinta bem?
- Olhe, Maggie, ningum me faria dizer a uma mulher que a amo, se eu realmente no amasse. Eu amo voc, sim, e por algum motivo estpido nunca fui capaz de lhe dizer o quanto. Se alguma coisa lhe acontecesse, eu... eu acho que morreria.
- Sr. Haley, vai ter que deixar o quarto agora - informou a enfermeira que trazia o sonfero.
Kane afastou-se devagar, preocupado.
- Cuide bem dela - recomendou, antes de sair. 
E Maggie adormeceu com um sorriso nos lbios, porque as ltimas palavras dele tinham soado muito mais como uma ameaa do que como um pedido.


Jill ficou ao lado de Kane, na sala de espera, enquanto a cirurgia acontecia. E, vendo-o andar de um lado para o outro, como qualquer homem a ponto de ser pai, tirou algumas fotografias para mostrar a Maggie depois.
Quando o mdico apareceu na ponta do corredor, Mark j estava com eles e foram todos ao seu encontro, para saber como tudo acontecera.
- Adoro esta parte! - brincou o obstetra, sorridente. - Sinto-me um astro!
- Como ela est? - Kane quis saber, aflito.
- Muito bem. E o senhor  pai de um belo garoto. Poder v-lo em uma hora. Vamos coloc-lo na unidade neo natal, mas ele est reagindo maravilhosamente bem.
Kane sentiu, de repente, que o sangue havia parado de correr em suas veias. Tanto que Mark e Jill tiveram de ampar-lo, com receio de que desmaiasse.
- No  nada - ele garantiu. -  que, depois de tanta preocupao, saber que as duas pessoas mais importantes da minha vida esto bem... Ora, estou me sentindo aliviado e feliz, imensamente feliz!


Horas mais tarde, quando Maggie acordou e olhou  sua volta, percebeu que Kane estava sentado na cadeira  cabeceira da cama.
- Est tudo bem, meu amor! - avisou ele depressa, com receio de que ela se preocupasse  toa. -Benjamin  lindo e perfeito.
Ela sorriu.
- Quando posso v-lo?
- Assim que o mdico achar que tem condies de sentar-se na cadeira de rodas. Eu mesmo vou lev-la at o berrio.
Maggie assentiu e pareceu pensar por instantes. Depois chamou-o:
- Kane? 
- Sim?
- Ainda me ama? Ou foi um sonho que tive?
Ele riu, mas sentia um n na garganta, e acariciou o rosto plido.
- Sim, eu ainda a amo. E vou am-la para sempre. 
 Promete?
- Tem alguma dvida disso?!
Maggie olhou bem dentro daqueles olhos escuros e densos pelos quais se apaixonara. Amava-o demais e agora sentia esperana de que, finalmente, pudessem ter um casamento de verdade e formar uma famlia feliz.
- Eu ia ter um filho por motivos errados - murmurou, acariciando o rosto de Kane com a mo livre. - Mas voc apareceu e, de repente, tornou tudo certo.
Kane inclinou-se e beijou-a, carinhoso. No poderia estar mais feliz e sabia que essa felicidade era partilhada com ela, o que tornava tudo ainda mais encantador.


No dia seguinte, Maggie pde ver seu filhinho, mesmo que atravs de um vidro. Ele estava na incubadora, mas seu quadro evolua bem, conforme a opinio do pediatra do hospital.
Havia lgrimas nos olhos de Maggie quando a enfermeira trouxe o pequeno embrulhinho at bem perto do vidro, para que o visse melhor.
- Oh, Deus, ele  to lindo! - exclamou, feliz e emocionada, e sentiu a mo de Kane apertando-lhe de leve o ombro, confortando-a e assegurando-lhe a confiana que podia depositar nele para sempre.
- Agora somos uma famlia de fato, meu amor - afirmou ele. - E vamos ter outros bebs, encher aquela cobertura de criaturinhas maravilhosas, todas elas parecidas com voc.
- E voc vai ador-los - Maggie completou, secando as lgrimas que escorriam por seu rosto.
- Vou, sim. Incondicionalmente. Como amo voc. E, de repente, Kane soube que estava dizendo uma grande verdade. Amaria seus filhos com toda a fora de seu corao, como j amava Ben e Maggie.
Um sentimento diferente, caloroso, o invadiu, fazendo-o sentir-se muito bem. S ento conscientizou-se de que, pela primeira vez na vida, era um homem completamente feliz.


******************************FIM*****************************
